Exposição de Basquiat no Brasil

O Brasil recebe, neste início de ano, retrospectiva da obra do artista dos Estados Unidos Jean-Michel Basquiat (1960-1988), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo.

Basquiat nasceu em New York e suas obras, inspiradas em sua maioria nas ruas de sua cidade, alcançam altos preços em leilões de arte.

Considerado por alguns críticos como neo-expressionista, foi um dos poucos afro-americanos de sua época em um mundo artístico predominantemente branco.

A revista Carta Capital desta semana apresenta reportagem da exposição. Com texto de Jotabê Medeiros e fotos de Christopher Makos.

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A convulsão de Basquiat

Vodu e mitologias bíblicas, tiras de quadrinhos, anúncios de publicidade, o jazz de Dizzy Gillespie, Dinah Washington e Charlie Parker, heróis do boxe como Sugar Ray Leonard, a engenharia de palavras de Leonardo da Vinci. E, principalmente, a assertividade de sua negritude.

Com uma gama múltipla de interesses, que compreendia música, linguagem, cultura afro-caribenha (o pai era haitiano e a mãe, porto-riquenha) e procedimentos que iam do grafite à pintura tradicional e da colagem ao silkscreen, o artista norte-americano Jean-Michel Basquiat viveu pouco (morreu em 12 de agosto de 1988, de uma overdose de heroína, aos 27 anos), mas marcou muito.

A partir do dia 25, o legado e a influência de Basquiat poderão ser examinados com mais intimidade no Brasil. O artista é objeto de vívido interesse aqui, tanto que quase foram montadas duas mostras simultâneas – o Museu de Arte de São Paulo (Masp) iria tê-lo como carro-chefe de seu ano curatorial, mas, quando soube que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) também tinha o mesmo plano, cancelou o projeto alegando “desperdício de recursos públicos” em eventos simultâneos de um mesmo artista. O Masp planejava trazer 40 pinturas e desenhos com foco na arte africana.

Assim, a megarretrospectiva no CCBB de São Paulo acaba se constituindo na maior mostra de Basquiat no País até o momento, com itinerância (vai depois para Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro) e 80 trabalhos do artista expostos. Vai ficar todo o ano de 2018 no Brasil. Basquiat exerceu influência imensa na arte global, uma influência que chegou até o grafite paulistano – em fins dos anos 1980, artistas como Alex Vallauri, que viveram em Nova York, após contato com Basquiat e sua arte, “importaram” procedimentos e técnicas para o Brasil.

Hoje, ele é o mais valorizado artista norte-americano contemporâneo. Em julho do ano passado, uma de suas telas, Untitled (1982), foi vendida num leilão em Nova York por 110,5 milhões de dólares – de acordo com o jornal The New York Times, somente obras de Francis Bacon e Pablo Picasso equiparam ou suplantam esse valor em leilões. Segundo o CCBB, foram dois anos de negociações para trazer o lote de obras ao Brasil, que inclui quadros, desenhos, gravuras e pratos pintados.

(A retrospectiva Jean-Michel Basquiat foi negociada com a coleção da família Mugrabi, grupo de origem israelense que detém grande acervo contemporâneo. Os valores envolvidos não foram divulgados, mas o CCBB informou que houve uma disputa com Coreia do Sul, Japão e Rússia para realizar a mostra que opôs duas grandes instituições brasileiras.

Basquiat com Andy Warhol (1928-1987)

Pupilo de Andy Warhol, que o conheceu num restaurante e lhe comprou dois cartões-postais (o episódio é retratado no filme Basquiat, de Julian Schnabel, de 1996, no qual Andy Warhol é interpretado por David Bowie e Basquiat por Jeffrey Wright), o relacionamento com o rei da pop art tornou-se icônico no mundo da arte nova-iorquina. Basquiat abraçou Warhol, mas não se deixou vampirizar pelos conceitos do amigo.

Gênio atormentado, Basquiat entrou pela porta da tragédia no chamado Clube dos 27 (Jim Morrison, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Amy Winehouse, Janis Joplin e Brian Jones, entre outros, que morreram com essa idade), mas não foi por esse motivo cabalístico que ele inscreveu seu nome na cultura visual do seu tempo, e sim por um apurado senso de cor, composição, desenho, profundidade emocional e ineditismo iconográfico.

A influência de seu “expressionismo primitivo” é imensa, chegando até o grafite paulistano que eclodiu, em fins dos anos 1980, com artistas brasileiros como o pioneiro Alex Vallauri (1949-1987). Ele ajudou a dar conformação autoral a uma cultura urbana subterrânea. Ao mesmo tempo, tinha formação e referências acadêmicas.

No ensaio Word Hunger: Basquiat and Leonardo, o crítico Jeffrey Hoffeld sustenta que uma monografia de Leonardo da Vinci publicada nos anos 1950 na Itália, com 1.635 desenhos, converteu-se numa espécie de bíblia para Basquiat. O jovem artista do Brooklyn passou a usar, como Da Vinci em seus estudos, a palavra como um elemento da tela, unificando superfícies, desdobrando a espacialidade, criando formas reconhecíveis e objetos, e mesmo para desidratar as formas. No CCBB, estará em exposição o quadro Leonardo, de 1983, um pequeno tributo ao mestre.

Basquiat usufruiu de prestígio em vida, não se trata de um revival temporão. Em 1982, foi convidado para a Documenta 7 de Kassel, na Alemanha, e no ano seguinte tornou-se o artista mais jovem e o primeiro negro a ter uma exposição na Whitney Biennial, em Nova York. Para o professor e curador Cauê Alves, doutor em filosofia, a ascensão do trabalho de Basquiat no mercado de arte tem a ver com a presença da “força, do frescor das ruas e da relação que sua obra possui com a cultura urbana, o grafite e a pichação”.

“É claro que a história de vida, a origem e o fim trágico, exigidos pela sua obra, tornaram-se um mito e isso colabora para que ele tenha se tornado um fenômeno publicitário. É inegável que a indústria da cultura incorporou completamente seu trabalho. Tanto os museus quanto o cinema e o mercado de arte souberam explorar a singularidade de sua trajetória”, analisa o curador, que salienta não querer desmerecer o sucesso póstumo de Basquiat, mas reafirma a importância de desvincular valores de mercado da qualidade das obras.

“O mercado de arte tem um funcionamento muito específico e uma lógica que não necessariamente possui relação com o valor cultural de uma obra. O mercado deveria atribuir apenas o valor de troca dos trabalhos, a sua dimensão enquanto mercadoria”, considera Cauê. “A obra possui outros valores que não podem ser quantificados, valores sociais, políticos ou ligados ao conhecimento. Há muitos artistas de rua que não foram reconhecidos pelo circuito da arte, mas que nem por isso são inferiores a Basquiat.”

O galerista e ativista Baixo Ribeiro, fundador da Galeria Choque Cultural (com foco em grafite e linguagens contemporâneas), vê uma produção “forte, consistente e carismática” como cerne do sucesso de Basquiat, mas também uma associação com a própria conformação geopolítica de sua cidade, Nova York, na qual o grafite tornou-se um elemento fundamental da cultura e da expressão livre.

“Só essas qualidades bastariam para torná-lo um grande nome entre os artistas da sua geração. Mas alguns fatores combinados o colocaram nessa posição de máximo destaque no mercado: o apadrinhamento de Andy Warhol foi determinante nessa questão da valorização no mercado, assim como o fato de o artista ter morrido ainda muito jovem, o que limitou a quantidade de obras disponíveis”, analisa.

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