O legado de Silicrim, o navegador solitário

Benedito Raposo Teixeira, conhecido dentro e fora d’água como “Mestre Silicrim”, faleceu ontem (11), perto da ilha de São Lucas, em Cururupu-MA.

Silicrim teve a vida inteira dedicada ao mar. É uma lenda na arte da navegação nos barcos artesanais feitos no Maranhão.

A vida de Silicrim foi narrada em um belo documentário dirigido pelo cineasta Edson Fogaça e exibido em uma sessão lotada, no cine Praia Grande, com a presença do navegador Amir Klink.

Parte do filme conta o processo de recuperação do barco de Silicrim, feita no Estaleiro Escola, durante o período em que o mestre recuperava-se de uma cirurgia e ficou longe da embarcação.

A reforma completa do barco é fruto da generosidade e profundo sentimento solidário de Luiz Phelipe Andrès, diretor geral do Estaleiro Escola.

Ontem (11), ao tomar conhecimento da morte de Silicrim, Andrès escreveu em uma rede social o texto (abaixo), que tomo a liberdade de reproduzir.

Texto de Luiz Phelipe Andrès sobre a morte de Silicrim

Prezados amigos e colegas, tenho obrigação de interromper o clima de alegrias e brincadeiras do período de carnaval para cumprir o doloroso dever de comunicar-lhes o falecimento do nosso querido amigo Mestre Benedito (Seu Bi), (Mestre Silicrim) ocorrido no dia de hoje (11/Fev) nas proximidades da ilha de São Lucas onde nasceu.

A notícia nos chegou primeiro através de telefonema do amigo Betinho da AVEN, que por sua vez foi comunicado pelo Jorge Dino proprietário da Pousada Travessia de Cururupu e também grande amigo nosso e de Seu Bi.

Deles soubemos que a causa do passamento foi acidental, com lamentável e trágico episódio de explosão no bujão de gás da embarcação. Nosso querido amigo ainda chegou com vida à Santa Casa de Cururupu, mas não resistiu. O sepultamento será amanhã segunda-feira lá na ilha de São Lucas arquipélago de Maiaú.

Na oportunidade deste lamentável episódio em que nossas limitações humanas nos lembram que nada podemos diante dos desígnios superiores de Deus, unamos nossas orações pela alma do nosso querido amigo.

Trata-se da perda de um grande homem, amigo solidário de qualidades incomuns pelo exemplo de humildade e bondade, pela sua vida de trabalhador incansável. Nunca o vimos perder a serenidade e o bom humor na sua faina diária na dura atividade de navegar solitário pelo nosso litoral.

Mestre Silicrim era reconhecido pelos seus conterrâneos como o ultimo navegador solitário da costa maranhense. Por sua coragem indômita, mereceu sempre nossa grande admiração. Foi uma perda para todos os que se preocupam com a preservação da cultura marinheira em nosso país.

Aos 82 anos ainda navegava solitário em seu pequeno veleiro, denominado por ele mesmo “Império de um Navegador”, uma embarcação construída de forma artesanal tradicional, na melhor tradição dos carpinteiros navais maranhenses mas de uma simplicidade franciscana, sem motor e sem quaisquer equipamentos além de uma singela bússola.

Há mais de 40 anos tornou-se um precursor das práticas ambientalistas, pois mesmo sem nenhuma pretensão, mantinha atividades de recolher materiais descartados e espalhados nas ilhas e os trazia para serem reciclados em São Luís. Assim ajudava a manter a si próprio e seu pequeno barco.

No período de 2015 a 2016 o arquiteto e cineasta Edson Fogaça, realizou excelente documentário sobre a vida de Mestre Silicrim que foi premiado entre os cinco finalistas do “Blue Ocean Film Festival” de St. Petesburg de 2016 e também mereceu premiações no Festival de Cinema de Brasília e no tradicional festival de cinema do Maranhão, o Guarnicê em sua edição de 2017.

Em Dezembro de 2016 na pré-estréia do filme em São Luís, no cine Praia Grande, tivemos a honrosa presença de Amyr Klink, navegador brasileiro mundialmente reconhecido por suas façanhas de navegação solitária, que veio ao Maranhão para homenagear o “nosso” navegador solitário. Na ocasião ambos fizeram uma travessia da Baía de São Marcos no pequeno veleiro de Mestre Silicrim.

Fotos: reproduzidas a partir do perfil “O império de um navegador”, no Facebook

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