DO MAR AO CINEMA: A SOLIDÃO DE “SILICRIM” E AMYR KLINK

O navegador solitário Benedito Raposo Teixeira, o “Silicrim”, faleceu em 11 de fevereiro de 2018, aos 82 anos de idade, nas proximidades da ilha de São Lucas, no arquipélago de Maiaú, em Cururupu.

No final de 2016, quando tinha 80 anos, “Silicrim” recebeu uma grandiosa homenagem no filme “O Império de um Navegador”, dirigido pelo cineasta Edson Fogaça.

Ao assistir ao filme, escrevi uma crítica, publicada  em 1º de dezembro de 2016, no Blog do Ed Wilson (edwilsonaraujo.com.br). Este blog estava hospedado pela empresa SlzHost e foi “deletado” de tal forma que todo o conteúdo ficou perdido e inacessível. A SlzHost não conseguiu recuperar o Blog do Ed Wilson e o trabalho de quase dois anos foi totalmente “apagado” da web.

O artigo sobre Silicrim e o filme “O Império de um Navegador” foi salvo graças à generosidade do diretor do Estaleiro Escola, Luiz Phelipe Andrès, que à época (2016) imprimiu o texto do Blog do Ed Wilson, guardou uma cópia e digitou o texto novamente na madrugada de hoje (13 de fevereiro 2018), possibilitando a republicação aqui no site Agenda Maranhão.

Deixo meu agradecimento especial a Luiz Phelipe Andrès pela recuperação do texto. Se ele não tivesse guardado uma cópia em papel, seria impossível recuperá-lo.

Imagem copiada do Facebook de Luiz Phelipe Andrès, com a seguinte descrição: “Última foto de Mestre Benedito Raposo (Mestre Silicrim) no porto do Estaleiro Escola, no final de Novembro de 2017, alguns dias antes de partir para sua última viagem ao arquipélago de Maiaú e rever a ilha de São Lucas, sua terra natal.” Acima, no mastro principal, está Sebastião de Jesus Barros, do Estaleiro Escola.

DO MAR AO CINEMA: A SOLIDÃO DE “SILICRIM” E AMYR KLINK

Ed Wilson Araujo

O menino Benedito, nascido na ilha de São Lucas, em Cururupu, era caçoado pelos colegas porque se atrapalhava no letramento de tal forma que era uma tortura, para ele, a decoreba da cartilha do ABC: “sa-la-cra”, “sa-la-cre”, “sa-la-cri”.

Benedito nunca passou das lições iniciais de alfabetização, ganhou da turma o apelido Silicrim e abandonou a escola ainda criança. Seu destino era o mar e nas últimas duas décadas a marca do navegador solitário, ativo aos 80 anos de idade.

A sua vida inteira dedicada ao mar foi contada no filme “O Império de um Navegador”, exibido no Cine Praia Grande, com plateia lotada e a presença da personagem principal do filme – Benedito Raposo Teixeira, o “Silicrim”, familiares e amigos; do navegador Amyr Klink; do diretor do Estaleiro Escola Luiz Phelipe Andrès; e do diretor do Mavam Joaquim Haickel.

Amyr Klink veio especialmente ao Maranhão conhecer o marinheiro solitário do arquipélago de Maiaú, navegaram juntos e falaram pouco, depois da seção do filme, na homenagem grandiosa a um homem simples que só precisa de vento e solidão para uma existência de plenitude.

O filme dirigido por Edson Fogaça é impecável. Da trilha sonora ao script, recorta e costura a personagem “Silicrim” com a mistura de realidade e ficção em uma sensibilidade poética e com a força narrativa tão potente quanto a quilha cortando as ondas, tal qual o poema  “E então, que quereis?”, de Vladimir Maiakóvski.

A ideia do filme surgiu quando Silicrim aportou no Estaleiro Escola para deixar o barco guardado, enquanto ele iria fazer uma cirurgia de hérnia. Phelipe Andrès ficou encantado com a saga de Silicrim e desde então foi brotando a ideia de contar a história do navegador solitário do Maranhão em um filme.

Enquanto “Silicrim” se recuperava da cirurgia, Andrès mobilizou a equipe do Estaleiro Escola para fazer outra intervenção cirúrgica , desta feita no barco “O Império de Um Navegador”, que chegara ao porto bastante avariado.

Finalmente liberado pelo médico, ele recebe o barco de volta, totalmente recuperado, e segue a sina de navegador solitário, mas sempre rodeado de amigos em todos os portos por onde passou.

Trata-se deu um filme pare ser lido, porque na tela estão implícitos Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa.

A minha experiência de assistir ao filme remeteu Silicrim às narrativas da obra “Cem anos de Solidão” e à magia do realismo fantástico, especialmente o tempo, cravado na pele enrugada de sal e sol como se cada dobra fosse um capítulo das suas oito décadas de vida, quase todas no mar.

No filme, o tempo se arrasta carregado de nostalgia na cena do ritual de preparar o próprio café da manhã no interior do barco. O café coado lentamente duas vezes, depois bebido na fartura do olhar longínquo avistando o nada na beira da praia, ou nas caminhadas sem pressa pelas areias de encantarias da ilha dos Lençóis.

A vida de “Silicrim” é a negação do tempo presente apressado pelos motores e dispositivos móveis. Seu barco, “O Império de um Navegador”, que dá nome ao filme, é à vela. Ele é um homem movido a vento.

Guimarães Rosa está presente nos diálogos entre Silicrim e seus companheiros, demarcados por pausas, silêncios intermináveis, vazios interpretativos de uma profundidade medonha. Nesses papos despropositados, as histórias de aventuras no mar são recontadas pelos amigos das ilhas de Cururupu, parceiros de viagens, costurados aos depoimentos da personagem principal.

A poesia atravessa todo o filme, daí a presença de Fernando Pessoa na figura da personagem, naquilo que representa o ímpeto da conquista, o desejo de aventura, a constante inquietação de Silicrim com a segurança da terra firme. Ele é do mar e não enjoa, homem de alma grande, porque a vida inteira valeu a pena.

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