A Páscoa dos bem-te-vis de São Luís

 Por Ed Wilson Araújo

O pássaro bem-te-vi é tão significativo em São Luís que deveria ser informalmente declarado patrimônio imaterial da sonoridade na Ilha do Amor

Meu bairro da infância e adolescência, o Apeadouro, é um laboratório para a vida inteira. Sempre que vou lá visitar a minha mãe, na Rua Sousândrade, tenho lembranças. Uma delas é o hábito de botar apelido nos outros. Naquela época, o bullying ainda não tinha a visibilidade dos tempos atuais, embora já fosse uma prática muitas vezes grosseira.

No Apeadouro tinha apelido para todos os gostos. Eu era menino magrelo demais, parte da genética e também por queimar muitas calorias jogando bola na rua até escurecer. De tão franzino, ganhei apelido de bem-te-vi, carimbado por um homem grisalho, de voz grave, onde eu sempre levava sapatos para consertar. Ele próprio tinha apelido – Chapolion – e eu nunca soube seu nome de batismo.

Toda vez que eu ia entregar ou receber sapatos e sandálias na oficina de Chapolion, ele me recebia com um sorriso e a característica saudação “fala, bem-te-vi”. Nunca me incomodei com aquele codinome, talvez por isso o apelido não tenha colado.

Fato é que carreguei essa lembrança a vida toda e um carinho especial por esse pássaro, cantado em tantas músicas, narrado na literatura de Josué Montello e nome de um jornal importante na Balaiada – “O Bem-Te-Vi” – porta-voz das forças políticas urbanas que se opunham ao poderio dos comerciantes portugueses e proprietários de terras, na primeira metade do século XIX.

O pássaro bem-te-vi é tão significativo em São Luís que deveria ser informalmente declarado patrimônio imaterial da sonoridade na ilha do amor.

Nesta sexta-feira Santa de 2018, nos primeiros clarões do dia, eles já estavam quebrando o silêncio e nos convidando a refletir sobre a Paixão de Cristo e o significado da cerimônia do lava pés.

Fiquei uns minutos ouvindo o canto deles, aprendendo com os pássaros o sentido da humildade num tempo de tanta arrogância, fundamentalismo, agressões e intolerância.

O canto do bem-te-vi inspira o sentido do diálogo. É sempre responsivo, se proclama no encontro com o outro, em sintonia.

Há sempre uma doação na cantoria deles. Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa são dias bons para ouvir os bem-te-vis e capturar deles o sentido da solidariedade.

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