Lances de Agora X Bandeira de Aço

LANCES DE AGORA – 40 ANOS – Segunda parte


Em meados dos anos 1970, o publicitário e empresário Marcus Pereira estava mais entusiasmado ainda com a música maranhense. Conhecera outros compositores locais além de Chico Maranhão e andava encantado com os sons, ritmos e melodias dos nossos artistas. A certeza disso estava no lançamento de Bandeira de Aço no primeiro semestre de 1978, pouco antes da gravação de Lances de Agora. O disco com nove canções apresentava ao Brasil, na voz de Papete (José de Ribamar Viana), parte da produção de uma geração que criava uma música diferente, com sotaque próprio. Composições de César Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

Por diversas razões os dois discos trilharam caminhos diferentes nos anos seguintes. Enquanto Lances de Agora se tornaria uma relíquia de colecionadores e, principalmente, um disco dos admiradores de Chico Maranhão, Bandeira de Aço se transformaria, a partir de meados dos anos 1980, num fenômeno local e hoje é uma referência obrigatória, uma espécie de disco pai do que se denominou chamar MPM.

A volta de Papete a São Luís no final da década de 1980 seria fundamental para a popularização desse trabalho. Ao contrário de Chico, artista recluso e de personalidade difícil, Papete transitava com facilidade no meio musical, principalmente entre os artistas da nova geração, e soube construir sua história em torno do Bandeira de Aço. Além disso, era um instrumentista respeitado internacionalmente e sabia trabalhar como ninguém esse prestígio.

Há também diferenças marcantes entre os dois artistas como intérprete. A voz de Papete é muita mais radiofônica (o que seria uma voz radiofônica, Celso?) do que a de Maranhão, o que favorece a sua presença nas programações de rádio. Por outro lado, o percussionista gravou mais de 20 discos e fez centenas de shows em sua carreira, enquanto Chico não lançou nem 10 trabalhos e fazia poucas apresentações, principalmente nos últimos 20 anos. O fato de Chico Maranhão nunca ter lançado Lances de Agora em CD, também prejudicou a vida do disco e a renovação de seu público.

Se pesarmos na balança, no entanto, é impossível dizer que Lances de Agora é menos importante do que Bandeira Aço. Um e outro estão na linha de frente do que existe de mais importante na nossa música popular, o anúncio de um jeito muito particular de compor e de falar. Nosso sotaque à flor da pele.

Há todavia um detalhe relevante que pode fazer com que essa balança favoreça o trabalho de Maranhão. Enquanto Papete recria uma sonoridade de quatro compositores de muita originalidade, e foi criticado por isso, Chico é ele mesmo o porta voz de sua própria originalidade. E isso lhe dá uma vantagem se formos analisar rigorosamente as dicções e sotaques dos dois discos.  É claro que tudo isso passa por uma percepção subjetiva, pelo afeto que cada ouvinte tem com cada um dos discos.

Bandeira de brigas

Marcus Pereira aproveitou a gravação ao vivo do disco de Chico Maranhão para vir a São Luís entregar pessoalmente Bandeira de Aço aos compositores cujas músicas haviam sido gravadas no LP. O encontro aconteceu dia 21 de junho, véspera do início das gravações de Lances de Agora, e dia do jogo Brasil 3×1 Polônia pela copa do mundo na Argentina. “Eu preferi não ir ao encontro, porque queria ver o jogo sozinho. Fui me encontrar com eles já depois, na casa do violonista João Pedro Borges, na Rua São Pantaleão. Soube que o encontro foi muito tenso e que Marcus Pereira saiu arrasado”, afirma o compositor Chico Saldanha, que dois anos depois se mudaria para São Paulo, onde viveu mais de 20 anos.

Os artistas protestavam por causa de questões ligadas ao pagamento de direitos autorais e por discordarem da sonoridade e harmonia adotadas por Papete. Não aceitaram nem as argumentações do empresário, nem as do percussionista. Saldanha tinha na época 33 anos e foi indiretamente o “culpado” pela gravação do Bandeira de Aço. Foi ele quem mostrou à Papete dois anos antes as músicas que estão no disco.

Josias Sobrinho não se recorda do encontro com o diretor da gravadora. Disse que a primeira vez que ouviu o LP foi num bar no Apeadouro, perto da Avenida Kennedy. E não gostou do que ouviu. Nem ele, nem César Teixeira, nem Sérgio Habibe, nem Ronaldo Mota. A briga com os músicos foi tão desgastante, que Papete só lançaria o disco em São Luís, dez anos depois, em 1988, quando a poeira sentou. Marcus Pereira não teve tanto tempo para se recuperar. Dívidas o obrigaram a parar de lançar discos em 1980. Desiludido, endividado e com problemas pessoais, matou-se com um tiro na cabeça em fevereiro de 1981. No ano seguinte a gravadora fechou de vez as portas. Em 14 anos tinha em seu catálogo cerca de 140 discos, mais de uma centena deles lançada depois de 1973. Uma herança e tanto.

Capa do disco tributo feito em homenagem a Marcus Pereira e lançado em 1982, um ano depois de sua morte. No repertório 12 faixas com algumas das músicas que ele mais gostava, gravadas pelo seu selo. Entre elas, Engenho de Flores (Papete), A vida de “seo” Raimundo (Chico Maranhão) e De Teresina a São Luís (Irene Portela), esta última, cantora nascida em Codó (MA).

 

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