Ansiedade e cultura. Crítica de Mayron Regys à poesia de Drummond

Seria possível pensar a história recente da cultura humana sem associa-la a ansiedade da qual o capitalismo se nutre para poder exercer seu fascínio?

Os versos “Havia uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho havia uma pedra” de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930 no livro No meio do Caminho, representam a ansiedade na forma de uma pedra.

Pelo expresso, não há certeza de que a pedra em si representa um empecilho simbólico ou real. Empecilho ao poeta ou ao mundo do qual o poeta faz parte? O próprio uso do verbo haver no pretérito imperfeito deixa dúvidas. Por que escrever sobre a pedra no passado? A conclusão que se chega é a que pedra fora um obstáculo na história do poeta, mas que ele faz questão de reviver o incidente pelo qual passou. Depreende-se que o poeta vê a pedra muito mais do que um mero obstáculo. Ela continua no “meio do caminho”, pelo menos na linguagem.

O caminho é o meio para chegar a algum lugar. A linguagem é o meio para chegar a um significado. Uma das análises sobre esse poema se encaminha no sentido de que Drummond se referia a luta dos modernistas contra o academicismo que vigorava na cultura brasileira de maneira geral. Creio que não. Não se deve supervalorizar a análise da conjuntura em desfavor das razões intrínsecas presentes no poema. Só o poeta chegou ao “meio do caminho” e só o poeta comprovou que ali “havia uma pedra”.

Só o poeta percorre o caminho que leva a pedra e só o poeta maneja a linguagem. Pode-se supor que por haver uma pedra no caminho, este é pedregoso. Também pode se chegar a essa conclusão no tocante a linguagem.

Para Drummond, a tarefa do poeta é relembrar o trabalho árduo desde o despertar da ideia até a concretização do poema. Drummond não demonstra ansiedade, contudo o ato intelectual de relembrar pressupõe o esquecimento de algo subjetivo que se desperto poderia provocar ansiedade.

Mayron Regys é escritor, jornalista e ambientalista.

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