A origem das canções de Chico Maranhão

LANCES DE AGORA – 40 ANOS

Quarta parte

 Por Celso Borges 

Chico Maranhão como amo do Boi Brejeiro, aos 9 anos, em 1951

 

Quando Chico Maranhão nasceu, em 18 de agosto de 1942, a família Viveiros morava num sobrado da Rua Santo Antonio, 161, centro de São Luís, perto do seminário onde Padre Antonio Vieira escreveu e pregou o Sermão dos Peixes, um de seus textos mais importantes. O menino cresceu ouvindo toadas e batuques de bumba meu boi e outros tambores. Aos nove anos já era o amo do Boizinho Brejeiro que sua mãe, D. Camélia, organizava e dirigia reunindo crianças de 5 a 12 anos, com apresentações no Teatro Artur Azevedo e em jardins de infância de algumas escolas da cidade.

Nessa época, início dos anos 1950, Chico viu da janela de fundo daquele sobrado que dava para o quintal de outra casa, algo que o transformou: a apresentação do tambor de crioula de Zé Negreiro, um curandeiro da cidade. “As famílias tradicionais costumavam evitar esses rituais da cultura popular, mas minha mãe com sua sensibilidade via aquilo como uma manifestação de autenticidade, por isso colocava os filhos para viver essas experiências. Foi ela que me levou pra ver aquele tambor de Zé Negreiro”, diz o compositor.

O sobrado onde o artista nasceu também tinha um quintal, onde ele vivia brincando, envolvido num ambiente e vivência do mundo como um grande terreiro. Dona Camélia também costumava levar os filhos ao teatro. Aos cinco anos, Chico já cantava “Chuá, chuá”, na personagem de um caboco brasileiro. Mas ele não gostava, se achava desafinado. Para a mãe isso não era um problema. Ela acreditava na educação pela arte e o mais importante era que o filho se expressasse e sentisse o mundo de outra forma.

Brincantes do Boizinho Brejeiro, crianças de 5 a 12 anos, organizado por D. Camélia,  mãe de Chico Maranhão, nos anos 50 e 60 do século 20

 

Não satisfeita em ver Chico só cantando, D. Camélia o colocou para aprender piano. “Era muito chato, mas foi importante na formação de minha musicalidade”, diz o artista. Experiências como essa e sua participação no boizinho Brejeiro o ajudaram a construir uma visão poética sobre a relação do boi com a ilha e estão presentes em muitos momentos de sua obra. Para Chico, o Maranhão é uma nação boieira. “Acho que nós vivemos numa grande fazenda de boi, da manifestação do boi. Toda o meu trabalho está marcado por isso”.

Depois do piano, descobriu o violão na adolescência. Seu primeiro professor foi o primo José Maria Fontoura, conhecido como maestro Zé do Munim, que ensinou pra ele os primeiros acordes na casa de uns parentes às margens do rio Munim, em Axixá. Foi também sua primeira influência para compor marchinhas de carnaval. Os choros, valsas e polcas de Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga que sua mãe tocava no piano também foram importantes em sua formação.

Já em São Paulo, esse universo se ampliou quando passou a ouvir e tocar  sambas de Noel Rosa, Assis Valente e Lamartine Babo, principalmente este último, com quem mais se identificou. Todo esse arsenal sonoro se aliou às toadas e batuques de bois e tambores que embalaram suas noites de infância e adolescência, semeando as notas e harmonias das futuras canções.

Música, arquitetura e um frevo no meio

D. Camélia queria o filho Francisco artista, mas o pai preferia que ele se formasse numa universidade. Por isso o mandou estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo em 1963. Só que ali Chico encontrou uma turma que gostava de música, o Sambafo, e se entrosou com ela. Três anos depois já tinha composto Gabriela e Verdureiro e logo em seguida fazia parte como violonista do elenco da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo, encenada no TUCA (Teatro da Universidade Católica), com música de Chico Buarque, seu colega na arquitetura.

Com a classificação de Gabriela para as finais do festival da Record em 1967, tudo mudou na vida do artista. A música, defendida pelo MPB4, tirou 5º lugar, e Chico Maranhão saudado como revelação. No ano seguinte participou novamente do festival, classificando Descampado Verde (outra vez nas vozes do MPB4) no IV Festival da TV Record, e Dança da Rosa (com o conjunto 004, Traditional Jazz Band e o próprio Chico) no Festival Internacional da Canção.

Foto da contracapa do disco Maranhão, Marcus Pereira, 1974

 

O compositor afirma que Gabriela foi injustiçada no III Festival da Record e que é a melhor canção daquela disputa. Segundo ele há no conteúdo desse frevo uma convocação, um “vamo reunir”, que é o seu grande diferencial em relação às outras. “Além disso, ela tem a alegria e o frescor da juventude, que era o que a gente mais precisava naquele momento”.

Antes de Gabriela, Chico Maranhão ainda não tinha certeza se queria seguir o caminho da música popular. Só depois da repercussão desse frevo é que  começou realmente a se profissionalizar, assinando seu primeiro contrato com editoras. “Nunca pensei em seguir carreira, é verdade. Fazia tudo por paixão, a paixão sempre comandou minhas ações”, afirma.

A música e a arquitetura são dualidades que sempre conviveram dentro dele, mas a música foi o “cavalo” mais forte. Embora não tenha desistido da universidade e se formado em 1970, a canção popular foi o caminho que escolheu para seguir em frente. Só voltaria a arquitetura mais de 30 anos depois quando estudou, lecionou, fez doutorado e escreveu um livro sobre os sobrados de São Luís. Chico admite a pausa, mas não fala em abandono e volta. “Minha música veio ao mundo pela lente da arquitetura”, diz pra acabar com a conversa.

São Luís e São Paulo

Lances de Agora foi lançado no final de 1978 e nos anos seguintes virou uma raridade, peça de colecionador. Chico Maranhão nunca o lançaria em CD. A quem lhe perguntava, respondia que havia impedimentos com relação ao selo Marcus Pereira. Em 1980, ainda faria um último disco pela gravadora, (Fonte Nova), uma espécie de “canto do cisne”. É um outro belo trabalho, que incluía entre outras canções, Fieis de São José, Viver, o samba Festa no Céu, A Vida de “Seo” Raimundo, além do bumba-boi Veludo, esta última em parceria com o compositor Cláudio ‘Popó’ Valente.

Nos anos 1980 e 1990, realizou alguns shows em São Luís e também Rio de Janeiro e São Paulo, participou de programas de televisão, principalmente o Som Brasil, de Rolando Boldrin, e gravou outros quatro discos: O Brejeiro (1988), auto infantil, com músicas do boizinho de Dona Camélia; Quando as palavras vêm (1991), São João, paixão e carnaval (1996) e Só carinho (2001), além de uma ópera popular sobre a cultura do bumba-boi: O sonho de Catirina (1995).

No começo dos anos 2000, volta à arquitetura, estudando, lecionando e escrevendo. Concluiu Mestrado em Desenvolvimento Urbano em 2002, na Universidade de Pernambuco e lançou quatro anos depois o livro Urbanidade do Sobrado: um estudo sobre a arquitetura dos sobrados de São Luís (Editora Hucitec, São Paulo, 2006).  Enquanto escrevia sua dissertação, compôs duas canções gravadas num cd encartado no livro.

No final de 2017, Chico dá mais uma guinada em sua vida. Aluga a casa onde mora na rua Graça Aranha, perto da Beira-Mar, arruma as malas e volta a morar em São Paulo.  Anunciou recentemente a realização de novos projetos, o primeiro deles o lançamento de um disco duplo, reunindo 22 canções, 19 delas inéditas. O novo trabalho começou a ser gravado em 2014 e só ficou pronto dois anos depois, com produção e arranjos do violonista Luís Jr.

Detalhe da capa do disco Maranhão, Marcus Pereira, 1974, cujo repertório destacava a música Gabriela

 

continua

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