Marques de Pombal matou Gabriel Malagrida?

Uma vítima da Inquisição Portuguesa, que viveu no Maranhão no século XVIII, o padre jesuíta italiano Gabriel Malagrida, está sendo redescoberto neste início de século XXI.

Uma das iniciativas é o documentário Malagrida (2001), de Renato Barbieri, que ganhou vários prêmios. O filme, dividido em três etapas, está disponível nos canais You Tube. Filme Malagrida Parte I  Parte II Parte III

A avaliação entre historiadores é que a Inquisição foi somente um instrumento usado pelo Marques de Pombal e seus irmãos para condenar Gabriel Malagrida.

Em pleno século XVIII, além de ter sido contra a escravidão dos índios, como pregava os jesuítas, defendeu que era melhor esses povos viverem isolados em sua felicidade primitiva do que serem escravos de colonos portugueses.

No Brasil, incentivou a instituição de escolas, conventos e seminários. A capela do Colégio Santa Teresa, em São Luís, foi fundada por ele. No local, há objetos dele, até hoje, entre os quais uma santa e um banco de madeira.

O jesuíta e o Marques

Gabriel Malagrida nasceu em Milão (Itália) 1689. Veio para o Brasil em 1721. Foi a Belém em 1723 e, depois, para o Maranhão. Foi missionário em várias nações indígenas e percorreu áreas como a Baixada Maranhense, a partir de Alcântara e as que ficam longo de rios como o Itapecuru e Mearim.

Morou em São Luís e em Alcântara onde foi professor de Literatura e de Teologia por cerca de 7 anos. No documentário, o escritor português António Braz Teixeira, da Imprensa Nacional de Lisboa, afirma que o texto de Gabriel Malagrida é tão bom quanto o de Padre Antônio Vieira.

Mas, o que ele fez mesmo, no Maranhão, foi lutar contra a escravidão dos índios. Quando decidiu encerrar sua catequese entre os povos indígenas, mudou o eixo de sua atuação e passou a conviver com populações negras e os sertanejos luso-brasileiros.

Percorreu mais de 7 mil quilômetros, a partir de São Luís, por terras do Piauí, Bahia, Sergipe e da atual Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará. Retornou ao Piauí e Maranhão e chegou até Belém do Pará onde continuou pregando na Amazônia.

Conheceu o interior do Nordeste como poucos, no século XVIII. Passou por lugares isolados e abandonados e chegou a ganhar alguma fama como ‘fazedor de milhares’. Seria um paranormal, como sugere o cineasta Renato Barbieri.

Chegou a Salvador em 1738. De 1741 a 1745 andou pelo sertão da província de Pernambuco e Paraíba.

Mesmo sendo o Maranhão um dos estados em que mais atuou, é a Paraíba que mais o reverencia.

Abrigou 40 mulheres excluídas da Paraíba no Convento de Iguarassu, incluindo prostitutas.

Por coincidência, a rua de prevalência da prostituição, em João Pessoa, tem o nome de Gabriel Malagrida.

A condecoração mais importante concedida pelo Estado da Paraíba tem o nome de Medalha “Ordem do Mérito Padre Gabriel Malagrida”.

Depois de percorrer terras do Nordeste e Amazônia, Gabriel Malagrida retorna a Portugal em busca de apoio. Embarcou de Belém em 1749. Consegue apoio para suas obras e retorna para São Luís no mesmo navio em que estava o irmão do Marques de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que foi governador do Grão-Pará e Maranhão.

Foi quando o Rei Dom João V falece e seu filho, Dom José I, assume o trono, episódio que eleva o poder do Marques de Pombal no Reino de Portugal.  Depois de 3 anos entre o Pará e Maranhão, Gabriel Malagrida volta a Portugal, a pedido da rainha viúva do rei João V e mãe de D. José I, D. Mariana de Áustria.

No dia 1° de novembro de 1755 acontece o terremoto de Lisboa e Gabriel Malagrida associa o fenômeno a um castigo divino, enquanto o Marques de Pombal defende argumentos de que foram causas naturais, o que acirra mais a fúria do marques contra o jesuíta. Gabriel Malagrida já incomodava o marques e seus irmãos por ser contra a escravidão dos índios no Pará e Maranhão.

O Marques de Pombal sabia das atividades do jesuíta no Brasil por meio de seu irmão, o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado.

No dia 3 de setembro de 1758 houve um atentado contra o Rei D. José I, o que culminou no Processo dos Távoras, quando várias pessoas, incluindo a Família Távoras, foram condenadas. O fato serviu de pretexto para o Marques de Pombal abater vários inimigos.

Por meio de torturas, os Távoras falaram o nome de várias pessoas, incluindo o de Gabriel Malagrida que foi confessor da Marquesa de Távoras.  Mas, pela insuficiência das provas, o Marques de Pombal não pode condenar Gabriel Malagrida no Processo dos Távolas.

Por outro lado, Gabriel Malagrida foi denunciado de heresia pelo Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. No primeiro julgamento, presidido pelo irmão do Rei do José I, Gabriel Malagrida é absorvido.

No segundo julgamento, quando o irmão do marques de Pombal, Paulo de Carvalho e Mendonça era o Inquisidor Geral, Gabriel Malagrida foi acusado de herege por causa do que escreveu em 3 anos que ficou preso em uma masmorra subterrânea em Portugal.

Na manhã de 20 de setembro de 1761 foi lida a sentença que Gabriel Malagrida deveria morrer no garrote vil e seu corpo e objetos, incluindo peças de teatro, deviam ser queimados. Com gorro de palhaço foi conduzido, em cortejo, do Tribunal da Inquisição, com mais 52 condenados por bigamia, judaísmo, homossexualismo, bruxaria etc. até a Praça do Comércio onde aconteceu o auto-de-fé da Inquisição.

Os jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759, com cerca de 600 padres, depois de 2 séculos de atividades. O Marques de Pombal é aclamado como Iluminista e, mesmo perseguindo os índios na Guerra dos Guaranis, é chamado de protetor dos índios.

Revivendo Malagrida no século XXI

Em 2005, o escritor português Pedro Almeida Vieira publicou o romance O Profeta do Castigo Divino, que tem como personagem principal o padre Gabriel Malagrida.

Em 2011 foi criada por meio de ato do governador do Estado da Paraíba a comenda da Ordem de Mérito Gabriel Malagrida, publicada no diário oficial do Estado, nº 14.729 de 31 de agosto de 2011, concedida as autoridades civis e militares que tenham prestado notáveis serviços à Casa Militar do Governador daquele Estado.

Imagem de Gabriel Malagrida captada do documentário Malagrida

Imagem do Marquês de Pombal e um retrato que faz parte do Museu Nacional de Soares dos Reis, em Portugal

 

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