No Apeadouro, bom era ‘sarrar’ e chupar uma cabeça de peixe

Foto
Cozinha da Família de Bala & Cocota, na Rua Sousândrade, 23, Apeadouro.
Ed Wilson e Solange Knapp (abraçados); Norberto Guimarães (o Bala) e sua esposa, dona Cocota; Neilma e meu pai Raimundo Nonato (Mundico) ou Cabeça Branca

Por Ed Wilson Araújo

Dona Cocota e seu Raimundo (Mundico ou Cabeça Branca), vizinhos de muro com muro na rua Sousândrade, disputavam acirradamente o título de melhor triturador (a) de peixe do Apeadouro.

Ela está vivinha da silva para contar a história e ele, no céu, lugar de gente boa como era meu pai, o popular Cabeça Branca, conhecido na feira do João Paulo, onde foi quitandeiro por uns 40 anos ou mais.

Papai gostava especialmente de um peixe pequeno chamado bagrinho, do mar, cozido com caju azedo, que dava um sabor especial no caldo.

Ainda tenho na lembrança aquela montanha de carcaças de bagrinho em cima do prato, caindo pelas beiradas, depois de um banquete com as tradicionais chupadas na cabeça do bicho, arrematado com a famosa mistura do caldo com farinha.

É uma arte sugar as reentrâncias da parte superior do peixe, onde estão as gorduras derretidas mais saborosas. Chupador (a) de verdade se lambuza com método e perícia para devorar a iguaria com astúcia.
Cocota e Mundico tinham o costume de trocar um relaxo sempre que o pescado era o prato do dia: “eita, aí gosta de chupar uma cabeça de peixe”.

Não se sabe como, esta expressão, “chupar uma cabeça de peixe”, foi adaptada pela juventude do bairro.
Nos anos 1980 era tudo mais difícil. Para rolar uma transa não tinha as facilidades de hoje: motel, carro, dormir na casa do namorado ou namorada e tantas vantagens de ficar junto.

Geralmente, quando a turma do bairro via alguém arrumado e perfumado saindo fora do território, logo começavam as especulações, até que a pessoa declinava a frase desdenhando da molecagem – “vou ali chupar uma cabeça de peixe”.

Em tradução direta: o rapaz ia “namorar de porta” e o máximo desse ato era beijar.

Namorar de porta significava ir para a casa da menina, entrelaçar as mãos, conversar e sorver os lábios um do outro, sabendo que os pais ou irmãos da jovem poderiam surpreender o casal a qualquer momento.

Além desse namoro de porta, havia uma opção mais caliente: “sarrar”!

Esse ato libidinoso não combinava com namoro de porta, sob os auspícios dos pais. Sarro pra valer tinha de ser em lugar ermo: embaixo de árvores frondosas, encostados em um carro, nos arredores dos largos das igrejas, em alguma sombra onde tivesse uma calçada alta para encaixar os corpos em pé.

Sarrar é uma prévia elevada à terceira potência, uma esfregação sem fim de genitálias sob as roupas, mãos salientes deslizando por onde for possível e laços de língua em movimentos frenéticos.
Sarrar era um ato sexual sem penetração, porque todo o enlace era feito em pé e o casal se esfregava vestido mesmo, com roupa e tudo.

Quando havia a evolução de “chupar a cabeça de peixe” para o sarro, era a glória entre a rapaziada!
Nesse tempo não tinha celular, telefone fixo era um luxo, carro em nosso bairro uma preciosidade e motel só no improviso da “Brisa”, uns quartinhos de aluguel, encravada entre o Alto Paraíso e o relógio do João Paulo, onde hoje tem a estátua de São Marçal.

Tinha gente no Apeadouro que caminhava quilômetros a pé para chupar uma cabeça de peixe em outros bairros distantes e só voltava tarde da noite, sem se preocupar com violência.

Benigno era um desses que caminhava até Cohama, nos anos 1980, para beijar na boca.

Saudades daquela cidade que se foi e dos bons tempos do Apeadouro.

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