Hoje é aniversário do cantor e poeta Chico Maranhão

Parabéns ao cantor e poeta Chico Maranhão que completa 77 anos neste domingo, 18 de agosto.

Nesta data de aniversário de Chico Maranhão, o poeta e repórter Celso Borges encerra a série de sete reportagens em que aborda a história do disco Lances de Agora, gravado em junho de 1978.

Esta última matéria “Dona Camélia e o Brejeiro” é centrada na mãe de Chico Maranhão. O texto é cuidadosamente tecido entre fotos inéditas incluindo a de Dona Camélia.

As sete reportagens estão concentradas no espçao Poesia É, do site Agenda Maranhão, com fotografias inéditas e abordagens da polêmica envolvendo o LP Bandeira de Aço, de Papete. http://agendamaranhao.com.br/category/poesiae/

Os sete textos publicados no Agenda Maranhão estão servindo como base para a redação de um livro que Celso Borges está escrevendo sobre o assunto.

A previsão é que a redação final aconteça até o final de setembro para que a obra possa ser publicada em dezembro.

O livro falará sobre os bastidores da gravação do LP pelo selo Marcus Pereira, além de contextualizar culturalmente e historicamente a São Luís do Maranhão da época.

 Dona Camélia e o Brejeiro

Por Celso Borges

A presença de Dona Camélia é central na formação afetiva e musical de seu filho Francisco. Ecos da musicalidade das canções infantis retiradas da alma da cultura popular por sua mãe formam o núcleo central de muitas das canções que Chico compôs. Camélia Branca Costa de Viveiros (1906–1970) era professora de jardim-de-infância e fundadora de escolas públicas nos municípios maranhenses de Matões, Bacabal, Guimarães e Vitória de Mearim. Sua presença nessas cidades foi fruto das transferências do marido, seu Francisco Viveiros, que trabalhava no Departamento de Estradas de Rodagem.

A formação artística e cultural das crianças era sua grande preocupação, instalando em sua residência um palco para os ensaios. Recriou em linguagem infantil as manifestações culturais locais, principalmente o bumba-meu-boi. O Brejeiro é o melhor exemplo desse trabalho. Nos anos 1990, algumas escolas públicas e privadas chegaram a encenar o boizinho no mês de junho.

Outra preocupação de Dona Camélia era com a natureza, tanto que as escolas que fundou ou às quais prestou serviço têm a “árvore de D. Camélia”, A pianista foi contemporânea da professora Rosa Mochel, que também se destacou na área educacional. Ambas eram autoditadas e sempre preocupadas em permanecer atualizadas.

O Brejeirinho, como era carinhosamente chamado pelos brincantes, dançou num tempo em que os rios Anil e Bacanga ainda não passavam debaixo das pontes do São Francisco, Caratatiua e Bandeira Tribuzi. Antes da Alcoa e da Vale chegarem por aqui prometendo mundos e fundos, trazendo o risco de nos tornarmos cada vez mais imundos. Quando as famílias de classe média e de sobrenome majoritariamente português ainda moravam no centro antigo, em oito ou dez ruas, entre as praças Deodoro e João Lisboa. Ou no Monte Castelo, com sua arquitetura moderna pra época, erguida nos anos 1940, 1950. Gente que passava férias no Olho D’água ou nos sítios do Anil e da Maioba.

O Brejeiro bailou antes do rio São João – que atravessa a Maioba e o interior da ilha – apodrecer e as dunas do rio Jaguarema desabarem pelo sopro do vento que vinha da praia do Olho de Porco. Há quem diga que depois do São João, a alma do boizinho costumava vagar como um fantasminha brincante protegido pelo farol do Araçagi, na estrada de Santa Rosa, que ligava o Olho D’água à Raposa, uma praia distante, povoada por pescadores e caiçaras.

Oh, lá vai boi, meu boi brejeiro

Com o senhor são João na frente

Pra vencer qualquer batalha

Dar combate valente

A cada ano, O Brejeiro tinha um amo diferente. Chico foi o amo aos 9, 10 anos. Antes tinha sido um vaqueirinho. Ele ficava maluco com o boizinho e diz que a brincadeira foi uma das coisas mais importantes do seu trabalho como compositor. Daí a sua preocupação em resgatar e gravar um disco do Brejeiro, ainda no formato de LP, em 1988.

Como viajava muito pelo Maranhão, D. Camélia sabia um pouco desses festejos populares que acontecem no interior do estado. Mas O Brejeiro era um caldeirão de referências musicais. Além de toada, tinha influências de valsa, polka, marchinha e frevinho. Dona Camélia acreditava que no universo da criança essa era a melhor forma de educar, por meio da música e de atividades lúdicas.

A pianista e educadora criava a linguagem da criança, adaptando e tocando as canções no piano. Chico viu muitas vezes sua mãe compondo na sala de casa, sempre muito à vontade. Dona Camélia procurava transferir essa espontaneidade para as crianças.

Minhas primeiras lembranças musicais nasceram com o boizinho Brejeiro. Meus irmãos mais velhos, Fátima, Antonio José, Goretti e Amélia, brincavam no boi e recordo das noites nos anos 1960, na casa da rua da Paz, em que acordava quando eles chegavam da festa, ouvindo aquelas toadas que D. Camélia recolheu e adaptou.

Em cima: Antonio José e Fátima. Em baixo: Goretti e Amélia, em 1964. Irmãos do poeta Celso Borges, vestidos para a apresentação na festa junina de D. Camélia Viveiros no Teatro Arthur Azevedo, que incluía, além do Boi Brejeiro, balaio e quadrilha.

Brincantes do Brejeirinho em algum momento dos anos 1960

Em outubro de 1988, Chico conseguiu realizar um velho sonho: lançar um disco com as músicas do boizinho. O LP faz parte da primeira etapa do projeto Camélia Viveiros, de autoria de Chico, que ele definiu como um projeto em que as crianças contam histórias para adultos acordarem.

Sessentas meninos e meninas de escolas do SESI, dos bairros de Santa Cruz e Alemanha, participaram das gravações que tiveram participações especiais do compositor Nonato Buzar e de cantoras da Escola de Música do Maranhão. O disco foi distribuído nas escolas e incluído nos currículos do pré-primário e do primeira do 1º grau.

 

Deixe uma resposta

35 − 26 =