Poeta Celso Borges na Revista Pequiá

A Revista Pequiá, em sua sétima edição, apresenta entrevista com poeta maranhense Celso Borges.

A publicação literária é uma realização do Sistema Fecomércio do Ceará em parceria com a Universidade Federal do Cariri.

Nesta edição, também,  o jornalista Ethel de Paula apresenta um perfil do poeta popular Mário Gomes, flâneur terceiro-mundista-sem-paisagem e dândi desafortunado das ruas de Fortaleza.

O poeta da Via Láctea, Olavo Bilac, aparece mais vivo do que nunca na nova teia literária do chamado pós-modernismo.

No caderno de poesia tem três poetisas: Marta Eugênia (Alagoas), Anielle Oliveira (Bahia) e Debora Arruda (Sergipe).

Há outras preciosidades, entre as quais resenha, assinada por Bibiana Belisário, do livro Torto Arado, do autor baiano Itamar Viera Júnior. Numa trama conduzida com prosa melodiosa, o romance conta história de vida e morte, de combate e redenção.

Flávio Dino e os livros

A entrevista do governador Flávio Dino no programa Palavra Acesa estará disponível no You Tube.

Palavra Acesa é um programa no qual o entrevistado fala de sua relação com os livros. Já participam o cantor Zeca Baleiro, o ator César Boaes e a gestora social Diane Pereira Sousa.

Flavio Dino apesentou suas memórias de amor aos livros. A entrevista foi no sábado (19), no auditório do Sesc, em São Luís.

O programa e mediado pela jornalista Andréa Oliveira.

Os bate-papos com Baleiro e Boaes estão disponíveis no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=_KOJluV39sg).

Canção de Zeca Baleiro homenageia os qualhiras

Claudio Lima canta Qualhira, música inédita de Zeca Baleiro, no show Claudio Com a Lira, nesta sexta (23) e sábado (24), às 20h, no palco da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, no Centro Histórico de São Luís).

No repertório, 15 canções que buscam uma representatividade homoafetiva, entre as quais a inédita que Zeca Baleiro fez especialmente para o show.

Menos de um mês depois do show de estreia de Com a Lira, em maio, Cláudio Lima recebeu uma ligação de Zeca Baleiro dizendo que tinha feito uma canção especialmente para ele.

“Fiquei imensamente feliz; primeiro porque é a primeira vez que vou cantar uma música de Zeca e, também, porque a canção tem tudo a ver com aquilo que eu quero dizer nesse momento”, afirma Claudio Lima.

A direção do show é do teatrólogo Marcelo Flexa e tem participações especiais de Vinna, na sexta, e Tássia Campos, no sábado. No palco, os músicos Toti Moreira e Luís Cruz (violão, guitarra, percussão e bateria). Apoio Cultural BR-135 e Cervejaria Dona

Qualhira (Zeca Baleiro)

Viado, baitola, boiola, frutinha,

Gazela, bicha, bambi

Errante, erradio, perdido,

Desnorteado, maricas, urucum

Barrote, barril, perigoso

Frango, jóquei de jiboia

Entendido, invertido

 

Efeminado

Fresco, pera, maçã

Fruta

Na luta

Contra a força bruta

 

(Eu) sou um anjo que sai pela rua

Arte (dança) que o povo admira

Anjo torto, com a lira

 

Eu sou um anjo que vai pelo mundo

Com alma de caxemira

Mais que um anjo

(Mais que um homem)

Um qualhira

 

 

 

 

Hoje é aniversário do cantor e poeta Chico Maranhão

Parabéns ao cantor e poeta Chico Maranhão que completa 77 anos neste domingo, 18 de agosto.

Nesta data de aniversário de Chico Maranhão, o poeta e repórter Celso Borges encerra a série de sete reportagens em que aborda a história do disco Lances de Agora, gravado em junho de 1978.

Esta última matéria “Dona Camélia e o Brejeiro” é centrada na mãe de Chico Maranhão. O texto é cuidadosamente tecido entre fotos inéditas incluindo a de Dona Camélia.

As sete reportagens estão concentradas no espçao Poesia É, do site Agenda Maranhão, com fotografias inéditas e abordagens da polêmica envolvendo o LP Bandeira de Aço, de Papete. http://agendamaranhao.com.br/category/poesiae/

Os sete textos publicados no Agenda Maranhão estão servindo como base para a redação de um livro que Celso Borges está escrevendo sobre o assunto.

A previsão é que a redação final aconteça até o final de setembro para que a obra possa ser publicada em dezembro.

O livro falará sobre os bastidores da gravação do LP pelo selo Marcus Pereira, além de contextualizar culturalmente e historicamente a São Luís do Maranhão da época.

 Dona Camélia e o Brejeiro

Por Celso Borges

A presença de Dona Camélia é central na formação afetiva e musical de seu filho Francisco. Ecos da musicalidade das canções infantis retiradas da alma da cultura popular por sua mãe formam o núcleo central de muitas das canções que Chico compôs. Camélia Branca Costa de Viveiros (1906–1970) era professora de jardim-de-infância e fundadora de escolas públicas nos municípios maranhenses de Matões, Bacabal, Guimarães e Vitória de Mearim. Sua presença nessas cidades foi fruto das transferências do marido, seu Francisco Viveiros, que trabalhava no Departamento de Estradas de Rodagem.

A formação artística e cultural das crianças era sua grande preocupação, instalando em sua residência um palco para os ensaios. Recriou em linguagem infantil as manifestações culturais locais, principalmente o bumba-meu-boi. O Brejeiro é o melhor exemplo desse trabalho. Nos anos 1990, algumas escolas públicas e privadas chegaram a encenar o boizinho no mês de junho.

Outra preocupação de Dona Camélia era com a natureza, tanto que as escolas que fundou ou às quais prestou serviço têm a “árvore de D. Camélia”, A pianista foi contemporânea da professora Rosa Mochel, que também se destacou na área educacional. Ambas eram autoditadas e sempre preocupadas em permanecer atualizadas.

O Brejeirinho, como era carinhosamente chamado pelos brincantes, dançou num tempo em que os rios Anil e Bacanga ainda não passavam debaixo das pontes do São Francisco, Caratatiua e Bandeira Tribuzi. Antes da Alcoa e da Vale chegarem por aqui prometendo mundos e fundos, trazendo o risco de nos tornarmos cada vez mais imundos. Quando as famílias de classe média e de sobrenome majoritariamente português ainda moravam no centro antigo, em oito ou dez ruas, entre as praças Deodoro e João Lisboa. Ou no Monte Castelo, com sua arquitetura moderna pra época, erguida nos anos 1940, 1950. Gente que passava férias no Olho D’água ou nos sítios do Anil e da Maioba.

O Brejeiro bailou antes do rio São João – que atravessa a Maioba e o interior da ilha – apodrecer e as dunas do rio Jaguarema desabarem pelo sopro do vento que vinha da praia do Olho de Porco. Há quem diga que depois do São João, a alma do boizinho costumava vagar como um fantasminha brincante protegido pelo farol do Araçagi, na estrada de Santa Rosa, que ligava o Olho D’água à Raposa, uma praia distante, povoada por pescadores e caiçaras.

Oh, lá vai boi, meu boi brejeiro

Com o senhor são João na frente

Pra vencer qualquer batalha

Dar combate valente

A cada ano, O Brejeiro tinha um amo diferente. Chico foi o amo aos 9, 10 anos. Antes tinha sido um vaqueirinho. Ele ficava maluco com o boizinho e diz que a brincadeira foi uma das coisas mais importantes do seu trabalho como compositor. Daí a sua preocupação em resgatar e gravar um disco do Brejeiro, ainda no formato de LP, em 1988.

Como viajava muito pelo Maranhão, D. Camélia sabia um pouco desses festejos populares que acontecem no interior do estado. Mas O Brejeiro era um caldeirão de referências musicais. Além de toada, tinha influências de valsa, polka, marchinha e frevinho. Dona Camélia acreditava que no universo da criança essa era a melhor forma de educar, por meio da música e de atividades lúdicas.

A pianista e educadora criava a linguagem da criança, adaptando e tocando as canções no piano. Chico viu muitas vezes sua mãe compondo na sala de casa, sempre muito à vontade. Dona Camélia procurava transferir essa espontaneidade para as crianças.

Minhas primeiras lembranças musicais nasceram com o boizinho Brejeiro. Meus irmãos mais velhos, Fátima, Antonio José, Goretti e Amélia, brincavam no boi e recordo das noites nos anos 1960, na casa da rua da Paz, em que acordava quando eles chegavam da festa, ouvindo aquelas toadas que D. Camélia recolheu e adaptou.

Em cima: Antonio José e Fátima. Em baixo: Goretti e Amélia, em 1964. Irmãos do poeta Celso Borges, vestidos para a apresentação na festa junina de D. Camélia Viveiros no Teatro Arthur Azevedo, que incluía, além do Boi Brejeiro, balaio e quadrilha.

Brincantes do Brejeirinho em algum momento dos anos 1960

Em outubro de 1988, Chico conseguiu realizar um velho sonho: lançar um disco com as músicas do boizinho. O LP faz parte da primeira etapa do projeto Camélia Viveiros, de autoria de Chico, que ele definiu como um projeto em que as crianças contam histórias para adultos acordarem.

Sessentas meninos e meninas de escolas do SESI, dos bairros de Santa Cruz e Alemanha, participaram das gravações que tiveram participações especiais do compositor Nonato Buzar e de cantoras da Escola de Música do Maranhão. O disco foi distribuído nas escolas e incluído nos currículos do pré-primário e do primeira do 1º grau.

 

César Boaes fala do pai no Palavra Acesa

O ator César Boaes, que interpreta a personagem Clarisse Milhomem na comédia Pão com Ovo, foi o entrevistado do programa Palavra Acesa, mediado pela jornalista Andréa Oliveira, na sexta-feira (16), no Teatro Napoleão Ewerton, do SESC, em São Luís do Maranhão.

César Boaes falou de sua relação com os livros e homenageou seu pai, que estava na plateia, com quem ele aprendeu a gostar de poesia ainda na infância. .

Palavra Acesa tem como pauta principal o amor ao livro. Foi lançado em julho com entrevista gravada com o compositor Zeca Baleiro. O projeto segue até dezembro (uma a cada mês) e é disponibilizado no You Tube.

O bate-papo com Zeca Baleiro está disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=_KOJluV39sg).

O projeto é uma realização do Festival BR-135, Sesc MA e da Escola de Cinema do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (Iema).

Tem apoio do Circuito Palavra Acesa, integrado pelas livrarias Vozes, Sebo do Arteiro, Chico Discos, Poeme-se, PaçoProsa e Feira da Tralha, todas localizadas no Centro Histórico de São Luís.

Tom Zé e Torquato Neto no Café Guará

O Café Guará, no Chico Discos, é mais um espaço de lazer e cultura aberto neste tempo de revitalização do Centro Histórico de São Luís.

Funciona no térreo do sebo e bar Chico Discos, na esquina das ruas dos Afogados e São João, de segunda a sábado, das 9h às 18h.

Neste sábado (10) o Café Guará foi o palco de lançamento, em São Luís, do livro “Vaia de bebo não vale!”, sobre a trajetória de Tom Zé, de autoria de Helen Lopes, natural de Codó.

Disponível para o download gratuito no link: https://editorapassagens.blogspot.com/2019/04/tom-ze-e-um-capitulo-especial-quase.html

Também foi o momento da cientista social Isis Rost incrementar mais a venda  “O Risco do Berro – Torquato Neto, Morte e Loucura” com a vida do poeta piauiense.

Na foto, Chico Discos entre o poeta Celso Borges e Isis Rost.

Palavra Acesa estréia com Zeca Baleiro

O compositor Zeca Baleiro declara seu amor aos livros no lançamento do Programa de entrevistas Palavra Acesa, neste sábado (27), às 16h, no Teatro SESC Napoleão Ewerton (Avenida dos Holandeses, em frente ao Ibis Hotel, em São Luís).

Na ocasião será exibido o vídeo da conversa que teve com a jornalista e escritora Andréa Oliveira, gravada para inaugurar o projeto, que segue de agosto a dezembro, com novas entrevistas (uma a cada mês), todas registradas em vídeos que serão disponibilizados na internet.

Nesta primeira entrevista, Zeca Baleiro fala de suas primeiras leituras, das lembranças da biblioteca de seu pai e lê um trecho do livro O estrangeiro, de Albert Camus, escolhido por ele para inaugurar o acervo do programa. “Ler é um gosto que se adquire na infância e uma vez adquirido a gente leva para a vida”, disse.

O programa Palavra Acesa, segundo Andréa Oliveira nasceu da necessidade de acender uma chama nesse momento sombrio pelo qual o Brasil está passando. “Enquanto eles defendem o uso de armas e promovem o ódio e a ignorância, nós declaramos, em lugar da guerra, o amor ao livro e ao conhecimento como ferramenta para vencer a barbárie”.

O projeto pretende formar um acervo especial com os livros citados pelos convidados. “A ideia inicial era que, a cada edição, o Palavra Acesa ganhasse um livro autografado pelo entrevistado. Mas, durante a edição do piloto com Zeca Baleiro, mapeamos mais de 20 livros, o que nos motivou a formar um conjunto mais robusto de obras”, explica a jornalista.

As conversas serão em torno das memórias e da relação da pessoa com a literatura. Um diferencial do Palavra Acesa em relação aos demais programas de entrevistas sobre a mesma pauta é o perfil dos convidados. O critério inicial é de que não sejam escritores ou profissionais que tenham o livro como ferramenta de trabalho. “Queremos trazer pessoas de diferentes áreas de atuação que têm em comum a paixão pelos livros, uma paixão que não seja óbvia por causa da profissão”, explicou Andreia Oliveira.

A edição piloto do Palavra Acesa teve direção executiva de Alê Muniz e Luciana Simões e foi realizado pela equipe de produção e audiovisual do Festival BR-135. A entrevista foi gravada no Casarão BR, imóvel localizado no centro histórico de São Luís, adquirido para funcionar como usina de criação para projetos culturais.

O Palavra Acesa é uma concepção de Andréa Oliveira. Tem parceria com o BR135, o Sesc do Maranhão,  o Iema e o Circuito de livreiros do Centro da Cidade (Vozes, Sebo do Arteiro, Chico Discos, Poeme-se, Feira da Tralha e Paço e Prosa)


Palavra acessa
Programa de entrevistas
Apresentação: Andréa Oliveira

O quê: Lançamento com exibição de vídeo da entrevista com Zeca Baleiro
Quando: Sábado, 27 de julho, às 16h
Onde: Teatro Napoleão Ewerton (Av. dos Holandeses, em frente ao Ibis Hotel)
Entrada: 1 kg de alimento por um par de ingressos

Celso Borges lança 2ª edição de O Futuro Tem o Coração Antigo

O livro O Futuro Tem o Coração Antigo, reeditado pela Pitomba! Livros e Discos, terá noite de autógrafos e leitura de poesia na abertura do sebo do Chico Discos, nova espaço para literatura no centro da cidade. No local, além da comercialização de livros e discos, funcionará o Café Livre.

Sobre a imagem de uma cidade em que se misturam passado, presente e futuro, Celso Borges escreveu, entre 2011 e 2012, cerca de 70 poemas curtos em que desnuda o impacto que a cidade teve em sua alma depois que voltou a morar em São Luís. Borges viveu entre 1989 e 2009 em São Paulo, onde lançou quatro livros de poemas.

A primeira edição de O futuro tem o coração antigo é de 2013. As fotografias do livro foram todas realizadas por alunos do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) utilizando a técnica pin hole (em que a imagem é captada por meio de um furo numa lata), sob a coordenação do professor Eduardo Cordeiro.

Numa resposta ao tempo nervoso das câmeras digitais, o poeta apresenta uma cidade em preto e branco, inventada, coberta de cinzas e pó, que caminha em direção à luz. O projeto gráfico é da paulistana Luiza de Carli. Mais informações sobre o projeto no site www.ofuturotemocoracaoantigo.com.br .

“Estou muito feliz em poder relançar este trabalho que fala sobre a cidade num espaço novo e de alma livre, que fica no centro de São Luís. O Chico Discos tem um valor de afeto e de encontro, que fala diretamente com aquilo que sinto e acredito”, afirma o poeta. O evento terá ainda uma leitura com poemas de Borges e outros poetas maranhenses.

O futuro tem o coração antigo
Livro de poemas de Celso Borges

Lançamento dia 14 de março

Inauguração do Sebo do Chico Discos – esquina da Afogados com a São João, o Centro Histórico de São Luís

Com leitura de poesia

A impossibilidade (para Baudelaire, ou mesmo para Delacroix) de considerar que uma fotografia possa pertencer ao âmbito da Arte é resultado da maneira como eles consideram as relações entre a pintura e a fotografia: uma dialética em que, como a mão e a máquina, o legítimo e o ilegítimo são separados por uma heterogeneidade intransponível. O tempo passa e esta simbiose é manifesta na Obra de Celso Borges. (Eduardo Cordeiro, fotógrafo e professor do Ifma)

Fotos pin hole

 

 

As letras e canções de Lances de Agora

LANCES DE AGORA – 40 ANOS

Sexta parte

 A música produzida no Maranhão entre 1969 e 1984 é 15 anos de ouro puro: Chico Maranhão, César Teixeira, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho formam um quarteto de compositores geniais. Isso sem falar em Giordano Mochel, Chico Saldanha, Zé Pereira Godão e Ubiratan Souza, que começaram a produzir mais ou menos naquele momento, ou um pouco depois, como é o caso de Godão. É interessante observar que não há em nenhum deles traços visíveis do tropicalismo. A guitarra tropicalista, por exemplo, é completamente ausente nas poucas gravações e shows que fizeram naquele período. Não há transgressão pop e não bebem dos estilhaços do mundo urbano (ou bebem de forma muito particular). A fonte das canções que eles escreveram vem essencialmente da cultura popular e, um pouco menos, do samba.

Com raras exceções, não existe na música desses artistas ironia, ‘mau gosto’, pindorama ou antropofagia. Talvez pelo fato de São Luís ser literalmente uma ilha e esses compositores  pouco dialogarem além fronteiras, mesmo os que moraram no sul sudeste, como Chico, Sérgio, Mochel, Josias e Saldanha. A melodia e os acordes que produziram quando jovens mantiveram uma sonoridade local com características muito diferentes do restante do país. O Maranhão sempre produziu uma cultura popular forte e isso marcou profundamente cada um desses criadores.

É uma pena que esse ‘corpo musical’ não tenha conseguido de alguma forma se projetar nacionalmente como, por exemplo, o Pessoal do Ceará (Fagner, Belchior e Ednardo) ou os pernambucanos, liderados por Alceu Valença, todos eles contemporâneos dos maranhenses. Talvez o nosso cancioneiro não tenha tido um grande produtor musical que traduzisse o que elaboramos com tanta originalidade naquele momento. A sonoridade do disco Bandeira de Aço (Papete, 1978) anunciou, ainda que timidamente, uma possibilidade de descoberta de nossa música pelo resto do país, mas isso não teve continuidade, muito por conta do desentendimento entre os autores das faixas do LP, Papete e o dono do selo Marcus Pereira. Além da desinformação com relação aos direitos autorais, uma das causas do rompimento, os compositores maranhenses não aceitaram serem excluídos da concepção sonora da produção do disco e não ficaram satisfeitos com o resultado final.

Cesar Teixeira, no estúdio da TV Educativa, e Josias Sobrinho, fundador do grupo Rabo de Vaca. Fotos: Murilo Santos

Outra particularidade dessa geração é que ela não elaborou manifestos e conceitos que dessem unidade a algo que sugerisse um movimento. Não houve entre eles um poeta ou letrista que simbolizasse conceitualmente a música que fizeram, como foi o caso da Bossa Nova (Vinícius de Moraes e Newton Mendonça) e da Tropicália (Torquato Neto e Capinam). Eles são os próprios poetas, grandes poetas, todos caminhando o seu próprio caminho. Acredito que os desdobramentos do tropicalismo só apareceriam no Maranhão em poucos compositores que surgiram nos anos 1980, principalmente Zeca Baleiro.

Lembranças, lenços, lances de agora

Não costumo guardar somente livros em estantes e mesas de cabeceira. Entre o real e o imaginário é lá onde ponho minhas doces quinquilharias, pequenos animais lúdicos e, por fim, meus discos preferidos, sobretudo os vinis. Dedico a eles o mesmo zelo de um menino ao colecionar suas bolinhas de gude coloridas e carrinhos de brinquedo. Num arsenal sonoro que ainda mantenho de quase 300 LPs, quatro são do compositor Chico Maranhão, entre eles, Lances de Agora e Fonte Nova. A sonoridade  “precária” desses dois discos, produzida principalmente por um som torto e denso, sem virtuose, mas nem por isso menos comovente, Chico Maranhão nunca mais alcançaria.

Contracapa de Lances de Agora, lançado em 1978 pelo selo Marcus Pereira

Lances de Agora tem na contracapa texto assinado pelo publicitário e diretor da gravadora, Marcus Pereira, mas o LP não traz encarte com as letras das 11 canções. Como o discurso e a poesia de Chico Maranhão são carregados de um sotaque maranhense, com algumas particularidades linguísticas, e a qualidade técnica do disco dificulta em vários momentos o entendimento de certas palavras, a publicação das letras torna-se imprescindível para uma percepção mais apurada dos versos do artista e do seu jeito de falar e cantar as coisas e personagens da cidade. Mesmo quem conhece bem Lances de Agora, vai descobrir, aqui e ali, novas palavras na leitura das letras das canções.

Chico Maranhão – Lances de Agora (1978)

  1. Meu samba choro
  2. Lances de agora
  3. Ponto de fuga
  4. Cirano
  5. Mulher
  6. Frevo do barulho
  7. Boi, meu menino
  8. Velho amigo poeta
  9. Ponta de areia
  10. Vassorinha meaçaba
  11. Pastorinha

Samba Choro

Vai meu samba choro
Vai dizer pra essa menina
Que devolva o meu tesouro
No seu peito de menina
Hoje ela zomba provocando desafio
Não quer saber se eu passo fome ou passo frio
Seu abandono me deixou triste e vazio
Vou lhe contar
Eu vou lhe contar
Saiu de casa sem dizer pra onde ia
Não dá notícias não dá
Não quer saber se me dá saudade
Diga lá, diga lá
Se apressa a pressa que a tarefa
que hoje é tanta
Ela se nega e isso me espanta
Essa menina só me sabe dá desfeita
Meu peito é pranto
quando vê que não foi feita
A lamparina que ilumina a ceia
A amizade sem olhar a receita
A arruela que pertence à peça
Do aparelho que conserva aberta
A minha turma que não se curva
A nossa caixa que não se fecha
Meu camarada gaste seu conforto
A sua lábia seu lápis seu forro
Esse verniz que lhe passaram em torno
A sua mão que nunca foi no forno
O derradeiro minuto
O ouro inteiro do mundo
Mas não me deixe levar
Mas não me deixe levar
Seu coração bate de vagabundo

Samba Choro revela duas grandes influências na obra de Chico Maranhão, o samba brasileiro da turma de Noel Rosa, Cartola, Ismael Silva e Lamartine Babo, e o choro que nasce no Rio de Janeiro, no final do século 19, resultado da diversidade sonora africana em pleno diálogo com valsas e polcas da música européia. A letra é um discurso amoroso de abandono, de tristeza, acompanhado por versos de grande qualidade poética, na melhor tradição das belas letras da música brasileira. No meio desse samba choro, antes da repetição da segunda parte, uma pausa no discurso para a realização de um belo diálogo entre o bandolim de Ronald Pinheiro e o clarinete de Pitoca, frases melódicas que chamam atenção e marcam quem quer que ouça o disco.

Lances de Agora

Vá e leva a vida
Sem dizer que leva a minha vida sem querer
Vá e leve tudo que puderes
Faca coração colheres
separa teu prazer
Pra mim continua o mesmo fio de manhã
Na fábrica na rua no tear da artesã
Vá e leva tudo que te acorda
Rede onças canivetes cordas
Vá e diga aos outros
Que não gosta
Corta não se importa
Sai da porta
Vá mas volte se na horta
não tiver legumes para a torta
Vá e leve as mãos
Lembranças lenços lances de agora
Quem esquecer o amor
Verá varrer de si o seu cantinho ô
Quem gosta não faz favor
Com a vista aberta mostre a certa
O que falou
Vá e leva a vida
Sem dizer que leva a minha vida sem querer

Um samba típico da bossa nova com clara influência da batida do violão de João Gilberto. Chico canta conversando com o ouvinte: “pra mim continua o mesmo fio de manhã na fábrica na rua no tear da artesã…”. Letra bem trabalhada com uma sequência perfeita de rimas e aliterações. E um dos versos mais lindos da música brasileira: “Quem gosta não faz favor”.

Ponto de Fuga

Diga que o samba não é tua vida
Que o samba não te dá comida
Que o samba não bole contigo
Diga que o samba não é companhia
Que a roda de samba agonia
Que a Turma do Quinto é castigo
Mas diga também
Que quando te falta alegria
Procuras a fundo no dia
Um samba pra ser
o teu arrebém
E fique também pensando
que um ponto de fuga
Por ser pequenino não cruza
Com as retas mais curvas que o mundo tem
Diga que o samba não é tua vida
Que o samba não te dá comida
Que o samba não bole contigo
Diga que o samba não é companhia
Que a roda de samba agonia
Que a Turma do Quinto é castigo
Mas diga também
Que a boca que fala não lembra
Que quando escorrega relembra
O passo maior que o sambista tem

Uma reverência do artista ao samba, gênero musical muito presente na obra de Chico Maranhão. Vale lembrar a citação da Turma do Quinto, escola de samba do bairro da Madre Deus, berço de grandes sambistas e manifestações da cultura popular maranhense.

Cirano

Cirano sorria, tossia, sorria,
tossia, sorria, tossia sorria
Acendia o cigarro sentado sem graça
Numa poça d’água da velha calçada
Defronte a vidraça
Da nova vitrine sorrindo pensava
Soltando fumaça
Que embora a cabeça
Pareça hoje em dia que pensa sua pança
Vadia, vazia
De quem já fez tudo na vida
Já foi de pular corda
Fazer samba de roda
Já foi de por gaiola já foi
foi menino de roça que foi
Descobrindo, descobrindo
Que a barriga pra se encher
Precisa briga
E o salário da comida nunca sobra depois
Cirano
Cirano foi rei de sua vontade
Tinha tanta coragem
Pra ser um Bonaparte
Mas na história da arte se foi
Só foi alfaiate que foi
Costurando, costurando
Dando ponto e pro freguês mais o desconto
E foi sabendo portanto
E foi sabendo que tinha que viver do esforço
Da peça do pano do dinheiro do moço
Do corte do vinco, da calça, do bolso, da bossa, da prova
Do esboço da fantasia e da moda
Da freguesia que concorda sem saber porque
Do molde, aquele molde que mudou
Do novelo e do linho
Da agulha que o tempo enferruja
Da luta sem conta
Do amigo que encontra no caminho
Da hora do ajudante intrigante
Sabia do roubo
E com segurança que o tempo avança
E o que é velho descansa
Na breve lembrança do povo
Mas o que Cirano não sabia
Era do golpe que o homem recebe
Daquele que nada consegue
Do ácido ferro que fere
O peito de quem se apercebe
Da luta da greve do viver

Chico homenageia um alfaiate chamado Cirano, personagem cujo ofício é hoje cada vez mais raro nas grandes cidades. Acompanha o seu dia-a-dia, a dura existência dividida entre o novelo e o linho e o ácido ferro que fere a sua existência. A canção é dividida tem três partes: começa com um frevo, seguido por um samba e, por último, uma marcha. Cirano também foi gravada no primeiro disco solo do compositor, em 1974.

Mulher

Mulher
Eu nunca vou me convencer
Que é por causa desse meu viver
Que foges qual fumaça
Como um pássaro de raça
Que caçado se arrasta
Pelas brenhas, pelas matas,
cordilheiras e sertões
Sermos da mais alta solidão
Porões, entre os gabirus e os jabutis
Deixando-me perdiz, inútil carcará,
No ninho de raiz
Selvagem como um índio carajás
Que nas águas do seu igapó
Se dá como um todo
todo tempo  e só
Sabendo que a flecha
Rasgas as águas em pedaços
Fere as tábuas lá embaixo
Traz o peixe como um laço
que à tona vem mostrar
Praias novas para se acordar
Calhau, quando as águas baixam têm lugar
O sangue destas veias
Põem as velas no lugar
Os bancos de areia
Eu conheço só de olhar
Este barco está no mar
Venta loló, presse barco andar
Venta loló, presse barco andar

Uma canção de amor e ternura que saúda com um lirismo ímpar o universo feminino, perdido e enredado na beleza desse pássaro de raça, que foge qual fumaça e caçado se arrasta pelas brenhas, matas, cordilheiras e sertões. É pouco provável que o cancioneiro brasileiro tenha alcançado em outro compositor originalidade tão grande como nessa letra/poema em que Chico expande sua lírica para o seu próprio universo existencial.  O discurso também lança faróis sobre algumas dificuldades da convivência amorosa. No final da canção, Chico pede ajuda à natureza para seguir tentando porque o barco da existência está no mar e ele precisa seguir: venta, loló!

Frevo do barulho

Hoje vai ter frevo, sim, senhor
Frevo, sim senhor, barulho
E se for preciso, meu senhor
Carregue seu amor seguro
Frevo de bacuri, de buriti
de murici, de molho
Solta e ferrolho
Bota no chão sorvete de coco gostoso
Teimoso
Levante seu cata piolho
Pode jogar a semente no peito da gente Tá ultimamente
Estado de nervo nervoso
Não se esqueça seu cachorro
Que frevo não passa
Nem é frevo, não ferveu
E nem mesmo teve o abano, o abano do povo

Outra influência muito clara na obra de Chico Maranhão é o frevo. Gabriela, uma de suas músicas mais conhecidas, premiada no festival de TV Record, em 1967, é um frevo, gênero que também está presente em outros discos do compositor. A letra, lúdica, de Frevo do barulho cita algumas frutas típicas do Maranhão, como bacuri, buriti e murici, além do tradicional sorvete de coco, vendido nas ruas da cidade.

Boi meu menino

Um dia assim seremos menos ilusão
Um dia assim de outra maneira alazã
Além dos muros descaídos dessa história
Outros encontros nós teremos amanhã
Negras manias que eu tenho de querer
Os olhos quentes junto a mim a incendiar
Essas idéias que nos une a mesma mesa
Todos os dias que se pode conversar
Falar, falar, falar, assim
Anunciava neste mar
Mas até quando esta noite vai durar
Durar, durar, durar, assim, durou
é madrugada e já urrou
de manhãzinha boi por dentro da Maioba
Radiante é raça nova
Deixa essa barra dançar, dançar, dançar,
Dançar, dançar, dançar até morrer
Dança, boi meu menino
Dança, garrote divino
Enquanto a morte ceder
Mostra todos os caminhos
Teus chavelhos teus olhinhos
Pra esta nação aprender dançar, dançar
Dançar, dançar, dançar, até morrer

O universo do boi é tratado aqui de forma muito terna, como se o boi fosse um menino, uma criança.  Como se só ele com seus olhinhos pudesse mostrar e ser o guia para “esta nação aprender a dançar, dançar, dançar, até morrer”.

Velho amigo poeta

Velho amigo poeta, bom dia pra ti,
nesta manhã incerta, onde eu aprendi
que a vida é qualquer embarcação
sobre o mar da tormenta da paixão,
como vai o teu riacho de aluvião,
aonde os barcos são pedras de carvão,
que acendem assando o pão da poesia irmão,
me conta como vão os teus pezinhos de Romão,
e aquele mamoeiro macho sem razão,
que embaixo a seiva mata tuas impingens com algodão…

Caro amigo poeta, um beijo pra ti,
como vai meu colega, como vais aí?
como vai tua casa, teu clangor,
como vai tua paz interior,
como vai o teu porão de raro esplendor,
onde um lenhador,
carpinteiro é dada a arrumação do fogo incendiador,
do rumo das caldeiras mortas do nosso motor,
senhor dos parreirais de brasa e de calor,
amigo, irmão, papai, primeira lágrima de amor…

Como vai teu filho, teu querido filho?
teu retrato de criança, ramo do buquê da infância,
a rolar pelo capim, a correr pelo capim, a brincar pelo capim.
Me conta de lá, dos teus rios onde as margens correm pra beber,
me conta de lá, dos teus mares onde as ondas são de cabarés,
me conta de lá, dos teus olhos onde as covas são da viuvês…
me conta de lá, das pitangas, do ingá,
do cupim, da mambira, do camurupim
da guariba, do papa-capim, dos garités…
das travessias que não davam pé.

Como vão as torqueses de nervos à cata do coração?
Como vão as toalhas de mesa dos fins de conversa da Viana Vaz?
Como vai nosso sonho de linho, gomado a ferro morno, tostãozinho?
Como vão as sandálias que calças com arte, fivela pra fora da parte
da perna da calça, a única causa que tens no chão?

Depois de se formar em arquitetura em São Paulo, nos anos 1960, e de participar da cena musical brasileira no período dos festivais, Chico Maranhão volta a morar em São Luís no início da década seguinte, em busca de suas raízes musicais. Nesse momento conhece a escritora Arlete Nogueira da Cruz e seu companheiro, o poeta Nauro Machado. Houve uma época em que ficaram tão próximos que Chico ia visitá-los frequentemente na casa onde moravam, na rua Viana Vaz, uma das travessas da rua dos Prazeres, centro da cidade, próximo ao Jenipapeiro e à Camboa. Velho amigo poeta é uma lembrança afetuosa daqueles encontros com o casal e da cumplicidade que se estabeleceu, principalmente entre Chico e Nauro. A letra da canção lembra das toalhas de mesa, do mamoeiro macho no quintal, das sandálias que o poeta calçava com arte, fivela pra fora da parte da perna da calça, a única causa que tens no chão, entre outras imagens de pura poesia. O poeta confessaria mais tarde a Arlete que poucas coisas na vida lhe trouxeram tanta emoção quando Velho amigo poeta. Além do aspecto afetivo, Nauro destacava a qualidade e a construção perfeita do texto. Quase trinta anos depois, em 2004, o poeta homenagearia Chico Maranhão na parte final do livro Pão maligno com miolo de rosas: Chico velho, pulso firme/poeta irmão, em cabaré/para amparar-me no meu ir-me/aonde as águas não dão pé,/Chico velho, muito mais/que a rua toda, e sobretudo/a noite na Viana Vaz/sobre o meu coração mudo/……./Chico velho, nos Prazeres,/Chico velho na Alegria,/Chico velho, orai por eles,/Fontenelle e Zé Maria.

 Ponta d’areia

Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Capim verdinho levantando na cerca
Asfalto preto travessando a areia
Parede roxa quando nasce afundeia
Água na coxa trepadeira na telha
Fogo na boca mecanismo da veia
Surra o cachorro peixe seco na grelha
Morrendo pouco cada dia na mesma
Na mesa
Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Caranguejeira namorando a parede
Moça bonita desarmando a rede
Nasceu de novo palmeirinha contente
Viva o caroço que sustenta a gente
Olho no prato esperança na frente
Olha o borralho esquentando ausente
Morrendo pouco cada dia depende
Da trempe
Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Pequena América da minha pobreza
Adormecida na própria natureza
Numa esquina brasileira surpresa
Nasceu menina comendo farinha seca
No fundo no fundo no fundo
Da nossa cabeça

Até 1970, antes da inauguração da ponte de São Francisco, quem quisesse ir até a praia da Ponta d’Areia, teria que atravessar o Rio Anil de barco. As embarcações eram pequenas e nos feriados e finais de semana eram comuns pequenas filas para fazer a travessia. Seu Viveiros e D. Camélia, pais do compositor Chico Maranhão, tinham uma casa naquela praia onde a família passava as férias desde o final dos anos 40. Quando começou a fazer música, essa era uma das paisagens presentes na alma do artista. Ponta d’Areia foi composta na primeira metade dos anos 70, quando Chico voltou a morar em São Luís, depois de viver quase 10 anos em São Paulo. Mais do que uma homenagem e lembrança de infância, o refrão: Ê, Ponta d’areia, há muito tempo que eu não te vejo, não… É talvez um lamento pela perda de um tempo e de um espaço de vivências que ficaram para trás e que só por meio da música é possível recuperar.

Vassourinha meaçaba

Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Se meu amor me quisesse
Não faria como faz
Foge de mim e se esquece, rapaz
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Quem foi que viu por aqui
Uma feição miudinha
O meu amor diz que vi
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Perguntei lá da montanha
Pro vento que vai e vem
Vento que vem da Espanha, meu bem
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Fiz um barquinho a vela
Pra sair com meu amor
Ele falou da janela, não vou
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Convidei meu querubim
Pra ver o cocorocó
Ele falou-me assim: vai só
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Até uma formiguinha
O quanto te espero
Minha vida, minha quero
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração

Parte da obra de Chico Maranhão é recheada de canções lúdicas, herança do universo infantil e onírico que herdou de sua mãe D. Camélia, idealizadora do Boi Brejeiro, auto de bumba-meu-boi infantil construído a partir de vivências musicais em São Luís e no interior do estado. A casa onde morava a família Viveiros era o palco onde aconteciam os ensaios. O Brejeirinho era encenado no Teatro Artur Azevedo, em São Luís, nos anos 50 e 60 do século passado. Camélia Branca Costa de Viveiros (1906–1970) era professora de jardim-de-infância, fundadora de escolas públicas nos municípios maranhenses de Matões, Bacabal, Guimarães e Vitória de Mearim. Sua atuação nessas cidades foi em decorrência das transferências do marido, que era coletor e fiscal de rendas. A formação artística e cultural das crianças foi sua grande preocupação. Autodidata e estudiosa, D. Camélia recriou em linguagem infantil as manifestações culturais locais. Sua outra preocupação era com a natureza, tanto que as escolas que fundou ou às quais prestou serviço têm a “árvore de D. Camélia”, todas elas cultivadas e referenciadas em sua época e ainda hoje.  Chico bebeu nessa fonte, aprendeu pelas mãos da mãe a passear nesse universo que tinha, além do boi, o circo, a feira e as brincadeiras populares. Vassourinha Meaçaba é filha dessa herança.

Pastorinha

Cadê a pastorinha
que saiu da linha por uma varinha
Que dá na torrinha do amanhecer
Cadê ela minha filha que fez a quadrilha
Numa armadilha toda endoidecer
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer
A lua que é minha amiga
Vai fazer figa pra não ter briga
Pra ver quem fica com a espiga
e o doce cica vai pra barriga
Desse botica que responder
Será que essa pastorinha não fez uma linha
Jogando pedrinhas pra não se perder
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer
Eu vou passar a noite inteira nessa brincadeira
Com uma baladeira e uma ratoeira de adivinhação
Quem souber que venha correndo
O rato começou roendo, roendo
O doce do seu coração
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer

Uma das canções mais famosas de Chico Maranhão, da mesma linhagem lúdica de Vassourinha meaçaba. Tem um ritmo junino, uma quadrilha, uma brincadeira infantil cuja personagem principal é uma pastorinha. No vocabulário, palavras do mundo infantil do artista, comum nas brincadeiras juninas, principalmente nas quadrilhas.

UM SAMBA DO NOVO DISCO – CD DUPLO CONTRADIÇÕES

 

 Filho d’uma égua

Só mesmo sendo muito filho d’uma égua
Pra roubar sambas, poemas ou canções
Poetas merecem respeito
Por mais pobre que seja seu leito
Por mais pobre que seja seu chão
Não lhe considero mais
Nem mais estenderei a mão
Coisas de poeta
Não cabe qualquer tradução
Muitos já cultivaram a mania
De puxar da periferia
Uma brasa pra sua sardinha
Mas isso para nós aqui de casa
É meter a mão no povo
No caldeirão da vizinha
Mané Garrincha já contou
A nossa história
Brasileiro que é bamba
Já nasce com sua chama
Bate bola, bate samba
E não perde sua glória

poesia não vale

celso borges

fotos: eduardo j.

efeitos: claudio lima

eu

vi

ali

nódoas e anáguas de claudio costa

ventre em riste

mangue em transe

ou

vi

águas de cris campos perfumando

o sal marinho dos quintais

e

bebibabei

o samba saliva

de patativa

debaixo

da

mangueira

salve, rainha

a vós bradamos

os degredados filhos de eva

a vós suspiramos

neste vale de lágrimas

foto

grafei

wilka salles nua branca

densa pânica

walter firmo

embalando pixinguinha

driblando as pernas de garrincha

e

cartola inteiro

alvorada no terreiro

rei

hiorlando ria

em

passeata rural

de pássaros cobras

peixes

de pau e língua pra fora

dentro é lindo

mas quando entro 

sempre sopra um pesadelo

sobre

os

ombros do mundo

do chão de minas a são luís

uma lama marrom

escura

escorre

em

metástase catarro

o

Centro Cultural

Não Vale Maranhão

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