As letras e canções de Lances de Agora

LANCES DE AGORA – 40 ANOS

Sexta parte

 A música produzida no Maranhão entre 1969 e 1984 é 15 anos de ouro puro: Chico Maranhão, César Teixeira, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho formam um quarteto de compositores geniais. Isso sem falar em Giordano Mochel, Chico Saldanha, Zé Pereira Godão e Ubiratan Souza, que começaram a produzir mais ou menos naquele momento, ou um pouco depois, como é o caso de Godão. É interessante observar que não há em nenhum deles traços visíveis do tropicalismo. A guitarra tropicalista, por exemplo, é completamente ausente nas poucas gravações e shows que fizeram naquele período. Não há transgressão pop e não bebem dos estilhaços do mundo urbano (ou bebem de forma muito particular). A fonte das canções que eles escreveram vem essencialmente da cultura popular e, um pouco menos, do samba.

Com raras exceções, não existe na música desses artistas ironia, ‘mau gosto’, pindorama ou antropofagia. Talvez pelo fato de São Luís ser literalmente uma ilha e esses compositores  pouco dialogarem além fronteiras, mesmo os que moraram no sul sudeste, como Chico, Sérgio, Mochel, Josias e Saldanha. A melodia e os acordes que produziram quando jovens mantiveram uma sonoridade local com características muito diferentes do restante do país. O Maranhão sempre produziu uma cultura popular forte e isso marcou profundamente cada um desses criadores.

É uma pena que esse ‘corpo musical’ não tenha conseguido de alguma forma se projetar nacionalmente como, por exemplo, o Pessoal do Ceará (Fagner, Belchior e Ednardo) ou os pernambucanos, liderados por Alceu Valença, todos eles contemporâneos dos maranhenses. Talvez o nosso cancioneiro não tenha tido um grande produtor musical que traduzisse o que elaboramos com tanta originalidade naquele momento. A sonoridade do disco Bandeira de Aço (Papete, 1978) anunciou, ainda que timidamente, uma possibilidade de descoberta de nossa música pelo resto do país, mas isso não teve continuidade, muito por conta do desentendimento entre os autores das faixas do LP, Papete e o dono do selo Marcus Pereira. Além da desinformação com relação aos direitos autorais, uma das causas do rompimento, os compositores maranhenses não aceitaram serem excluídos da concepção sonora da produção do disco e não ficaram satisfeitos com o resultado final.

Cesar Teixeira, no estúdio da TV Educativa, e Josias Sobrinho, fundador do grupo Rabo de Vaca. Fotos: Murilo Santos

Outra particularidade dessa geração é que ela não elaborou manifestos e conceitos que dessem unidade a algo que sugerisse um movimento. Não houve entre eles um poeta ou letrista que simbolizasse conceitualmente a música que fizeram, como foi o caso da Bossa Nova (Vinícius de Moraes e Newton Mendonça) e da Tropicália (Torquato Neto e Capinam). Eles são os próprios poetas, grandes poetas, todos caminhando o seu próprio caminho. Acredito que os desdobramentos do tropicalismo só apareceriam no Maranhão em poucos compositores que surgiram nos anos 1980, principalmente Zeca Baleiro.

Lembranças, lenços, lances de agora

Não costumo guardar somente livros em estantes e mesas de cabeceira. Entre o real e o imaginário é lá onde ponho minhas doces quinquilharias, pequenos animais lúdicos e, por fim, meus discos preferidos, sobretudo os vinis. Dedico a eles o mesmo zelo de um menino ao colecionar suas bolinhas de gude coloridas e carrinhos de brinquedo. Num arsenal sonoro que ainda mantenho de quase 300 LPs, quatro são do compositor Chico Maranhão, entre eles, Lances de Agora e Fonte Nova. A sonoridade  “precária” desses dois discos, produzida principalmente por um som torto e denso, sem virtuose, mas nem por isso menos comovente, Chico Maranhão nunca mais alcançaria.

Contracapa de Lances de Agora, lançado em 1978 pelo selo Marcus Pereira

Lances de Agora tem na contracapa texto assinado pelo publicitário e diretor da gravadora, Marcus Pereira, mas o LP não traz encarte com as letras das 11 canções. Como o discurso e a poesia de Chico Maranhão são carregados de um sotaque maranhense, com algumas particularidades linguísticas, e a qualidade técnica do disco dificulta em vários momentos o entendimento de certas palavras, a publicação das letras torna-se imprescindível para uma percepção mais apurada dos versos do artista e do seu jeito de falar e cantar as coisas e personagens da cidade. Mesmo quem conhece bem Lances de Agora, vai descobrir, aqui e ali, novas palavras na leitura das letras das canções.

Chico Maranhão – Lances de Agora (1978)

  1. Meu samba choro
  2. Lances de agora
  3. Ponto de fuga
  4. Cirano
  5. Mulher
  6. Frevo do barulho
  7. Boi, meu menino
  8. Velho amigo poeta
  9. Ponta de areia
  10. Vassorinha meaçaba
  11. Pastorinha

Samba Choro

Vai meu samba choro
Vai dizer pra essa menina
Que devolva o meu tesouro
No seu peito de menina
Hoje ela zomba provocando desafio
Não quer saber se eu passo fome ou passo frio
Seu abandono me deixou triste e vazio
Vou lhe contar
Eu vou lhe contar
Saiu de casa sem dizer pra onde ia
Não dá notícias não dá
Não quer saber se me dá saudade
Diga lá, diga lá
Se apressa a pressa que a tarefa
que hoje é tanta
Ela se nega e isso me espanta
Essa menina só me sabe dá desfeita
Meu peito é pranto
quando vê que não foi feita
A lamparina que ilumina a ceia
A amizade sem olhar a receita
A arruela que pertence à peça
Do aparelho que conserva aberta
A minha turma que não se curva
A nossa caixa que não se fecha
Meu camarada gaste seu conforto
A sua lábia seu lápis seu forro
Esse verniz que lhe passaram em torno
A sua mão que nunca foi no forno
O derradeiro minuto
O ouro inteiro do mundo
Mas não me deixe levar
Mas não me deixe levar
Seu coração bate de vagabundo

Samba Choro revela duas grandes influências na obra de Chico Maranhão, o samba brasileiro da turma de Noel Rosa, Cartola, Ismael Silva e Lamartine Babo, e o choro que nasce no Rio de Janeiro, no final do século 19, resultado da diversidade sonora africana em pleno diálogo com valsas e polcas da música européia. A letra é um discurso amoroso de abandono, de tristeza, acompanhado por versos de grande qualidade poética, na melhor tradição das belas letras da música brasileira. No meio desse samba choro, antes da repetição da segunda parte, uma pausa no discurso para a realização de um belo diálogo entre o bandolim de Ronald Pinheiro e o clarinete de Pitoca, frases melódicas que chamam atenção e marcam quem quer que ouça o disco.

Lances de Agora

Vá e leva a vida
Sem dizer que leva a minha vida sem querer
Vá e leve tudo que puderes
Faca coração colheres
separa teu prazer
Pra mim continua o mesmo fio de manhã
Na fábrica na rua no tear da artesã
Vá e leva tudo que te acorda
Rede onças canivetes cordas
Vá e diga aos outros
Que não gosta
Corta não se importa
Sai da porta
Vá mas volte se na horta
não tiver legumes para a torta
Vá e leve as mãos
Lembranças lenços lances de agora
Quem esquecer o amor
Verá varrer de si o seu cantinho ô
Quem gosta não faz favor
Com a vista aberta mostre a certa
O que falou
Vá e leva a vida
Sem dizer que leva a minha vida sem querer

Um samba típico da bossa nova com clara influência da batida do violão de João Gilberto. Chico canta conversando com o ouvinte: “pra mim continua o mesmo fio de manhã na fábrica na rua no tear da artesã…”. Letra bem trabalhada com uma sequência perfeita de rimas e aliterações. E um dos versos mais lindos da música brasileira: “Quem gosta não faz favor”.

Ponto de Fuga

Diga que o samba não é tua vida
Que o samba não te dá comida
Que o samba não bole contigo
Diga que o samba não é companhia
Que a roda de samba agonia
Que a Turma do Quinto é castigo
Mas diga também
Que quando te falta alegria
Procuras a fundo no dia
Um samba pra ser
o teu arrebém
E fique também pensando
que um ponto de fuga
Por ser pequenino não cruza
Com as retas mais curvas que o mundo tem
Diga que o samba não é tua vida
Que o samba não te dá comida
Que o samba não bole contigo
Diga que o samba não é companhia
Que a roda de samba agonia
Que a Turma do Quinto é castigo
Mas diga também
Que a boca que fala não lembra
Que quando escorrega relembra
O passo maior que o sambista tem

Uma reverência do artista ao samba, gênero musical muito presente na obra de Chico Maranhão. Vale lembrar a citação da Turma do Quinto, escola de samba do bairro da Madre Deus, berço de grandes sambistas e manifestações da cultura popular maranhense.

Cirano

Cirano sorria, tossia, sorria,
tossia, sorria, tossia sorria
Acendia o cigarro sentado sem graça
Numa poça d’água da velha calçada
Defronte a vidraça
Da nova vitrine sorrindo pensava
Soltando fumaça
Que embora a cabeça
Pareça hoje em dia que pensa sua pança
Vadia, vazia
De quem já fez tudo na vida
Já foi de pular corda
Fazer samba de roda
Já foi de por gaiola já foi
foi menino de roça que foi
Descobrindo, descobrindo
Que a barriga pra se encher
Precisa briga
E o salário da comida nunca sobra depois
Cirano
Cirano foi rei de sua vontade
Tinha tanta coragem
Pra ser um Bonaparte
Mas na história da arte se foi
Só foi alfaiate que foi
Costurando, costurando
Dando ponto e pro freguês mais o desconto
E foi sabendo portanto
E foi sabendo que tinha que viver do esforço
Da peça do pano do dinheiro do moço
Do corte do vinco, da calça, do bolso, da bossa, da prova
Do esboço da fantasia e da moda
Da freguesia que concorda sem saber porque
Do molde, aquele molde que mudou
Do novelo e do linho
Da agulha que o tempo enferruja
Da luta sem conta
Do amigo que encontra no caminho
Da hora do ajudante intrigante
Sabia do roubo
E com segurança que o tempo avança
E o que é velho descansa
Na breve lembrança do povo
Mas o que Cirano não sabia
Era do golpe que o homem recebe
Daquele que nada consegue
Do ácido ferro que fere
O peito de quem se apercebe
Da luta da greve do viver

Chico homenageia um alfaiate chamado Cirano, personagem cujo ofício é hoje cada vez mais raro nas grandes cidades. Acompanha o seu dia-a-dia, a dura existência dividida entre o novelo e o linho e o ácido ferro que fere a sua existência. A canção é dividida tem três partes: começa com um frevo, seguido por um samba e, por último, uma marcha. Cirano também foi gravada no primeiro disco solo do compositor, em 1974.

Mulher

Mulher
Eu nunca vou me convencer
Que é por causa desse meu viver
Que foges qual fumaça
Como um pássaro de raça
Que caçado se arrasta
Pelas brenhas, pelas matas,
cordilheiras e sertões
Sermos da mais alta solidão
Porões, entre os gabirus e os jabutis
Deixando-me perdiz, inútil carcará,
No ninho de raiz
Selvagem como um índio carajás
Que nas águas do seu igapó
Se dá como um todo
todo tempo  e só
Sabendo que a flecha
Rasgas as águas em pedaços
Fere as tábuas lá embaixo
Traz o peixe como um laço
que à tona vem mostrar
Praias novas para se acordar
Calhau, quando as águas baixam têm lugar
O sangue destas veias
Põem as velas no lugar
Os bancos de areia
Eu conheço só de olhar
Este barco está no mar
Venta loló, presse barco andar
Venta loló, presse barco andar

Uma canção de amor e ternura que saúda com um lirismo ímpar o universo feminino, perdido e enredado na beleza desse pássaro de raça, que foge qual fumaça e caçado se arrasta pelas brenhas, matas, cordilheiras e sertões. É pouco provável que o cancioneiro brasileiro tenha alcançado em outro compositor originalidade tão grande como nessa letra/poema em que Chico expande sua lírica para o seu próprio universo existencial.  O discurso também lança faróis sobre algumas dificuldades da convivência amorosa. No final da canção, Chico pede ajuda à natureza para seguir tentando porque o barco da existência está no mar e ele precisa seguir: venta, loló!

Frevo do barulho

Hoje vai ter frevo, sim, senhor
Frevo, sim senhor, barulho
E se for preciso, meu senhor
Carregue seu amor seguro
Frevo de bacuri, de buriti
de murici, de molho
Solta e ferrolho
Bota no chão sorvete de coco gostoso
Teimoso
Levante seu cata piolho
Pode jogar a semente no peito da gente Tá ultimamente
Estado de nervo nervoso
Não se esqueça seu cachorro
Que frevo não passa
Nem é frevo, não ferveu
E nem mesmo teve o abano, o abano do povo

Outra influência muito clara na obra de Chico Maranhão é o frevo. Gabriela, uma de suas músicas mais conhecidas, premiada no festival de TV Record, em 1967, é um frevo, gênero que também está presente em outros discos do compositor. A letra, lúdica, de Frevo do barulho cita algumas frutas típicas do Maranhão, como bacuri, buriti e murici, além do tradicional sorvete de coco, vendido nas ruas da cidade.

Boi meu menino

Um dia assim seremos menos ilusão
Um dia assim de outra maneira alazã
Além dos muros descaídos dessa história
Outros encontros nós teremos amanhã
Negras manias que eu tenho de querer
Os olhos quentes junto a mim a incendiar
Essas idéias que nos une a mesma mesa
Todos os dias que se pode conversar
Falar, falar, falar, assim
Anunciava neste mar
Mas até quando esta noite vai durar
Durar, durar, durar, assim, durou
é madrugada e já urrou
de manhãzinha boi por dentro da Maioba
Radiante é raça nova
Deixa essa barra dançar, dançar, dançar,
Dançar, dançar, dançar até morrer
Dança, boi meu menino
Dança, garrote divino
Enquanto a morte ceder
Mostra todos os caminhos
Teus chavelhos teus olhinhos
Pra esta nação aprender dançar, dançar
Dançar, dançar, dançar, até morrer

O universo do boi é tratado aqui de forma muito terna, como se o boi fosse um menino, uma criança.  Como se só ele com seus olhinhos pudesse mostrar e ser o guia para “esta nação aprender a dançar, dançar, dançar, até morrer”.

Velho amigo poeta

Velho amigo poeta, bom dia pra ti,
nesta manhã incerta, onde eu aprendi
que a vida é qualquer embarcação
sobre o mar da tormenta da paixão,
como vai o teu riacho de aluvião,
aonde os barcos são pedras de carvão,
que acendem assando o pão da poesia irmão,
me conta como vão os teus pezinhos de Romão,
e aquele mamoeiro macho sem razão,
que embaixo a seiva mata tuas impingens com algodão…

Caro amigo poeta, um beijo pra ti,
como vai meu colega, como vais aí?
como vai tua casa, teu clangor,
como vai tua paz interior,
como vai o teu porão de raro esplendor,
onde um lenhador,
carpinteiro é dada a arrumação do fogo incendiador,
do rumo das caldeiras mortas do nosso motor,
senhor dos parreirais de brasa e de calor,
amigo, irmão, papai, primeira lágrima de amor…

Como vai teu filho, teu querido filho?
teu retrato de criança, ramo do buquê da infância,
a rolar pelo capim, a correr pelo capim, a brincar pelo capim.
Me conta de lá, dos teus rios onde as margens correm pra beber,
me conta de lá, dos teus mares onde as ondas são de cabarés,
me conta de lá, dos teus olhos onde as covas são da viuvês…
me conta de lá, das pitangas, do ingá,
do cupim, da mambira, do camurupim
da guariba, do papa-capim, dos garités…
das travessias que não davam pé.

Como vão as torqueses de nervos à cata do coração?
Como vão as toalhas de mesa dos fins de conversa da Viana Vaz?
Como vai nosso sonho de linho, gomado a ferro morno, tostãozinho?
Como vão as sandálias que calças com arte, fivela pra fora da parte
da perna da calça, a única causa que tens no chão?

Depois de se formar em arquitetura em São Paulo, nos anos 1960, e de participar da cena musical brasileira no período dos festivais, Chico Maranhão volta a morar em São Luís no início da década seguinte, em busca de suas raízes musicais. Nesse momento conhece a escritora Arlete Nogueira da Cruz e seu companheiro, o poeta Nauro Machado. Houve uma época em que ficaram tão próximos que Chico ia visitá-los frequentemente na casa onde moravam, na rua Viana Vaz, uma das travessas da rua dos Prazeres, centro da cidade, próximo ao Jenipapeiro e à Camboa. Velho amigo poeta é uma lembrança afetuosa daqueles encontros com o casal e da cumplicidade que se estabeleceu, principalmente entre Chico e Nauro. A letra da canção lembra das toalhas de mesa, do mamoeiro macho no quintal, das sandálias que o poeta calçava com arte, fivela pra fora da parte da perna da calça, a única causa que tens no chão, entre outras imagens de pura poesia. O poeta confessaria mais tarde a Arlete que poucas coisas na vida lhe trouxeram tanta emoção quando Velho amigo poeta. Além do aspecto afetivo, Nauro destacava a qualidade e a construção perfeita do texto. Quase trinta anos depois, em 2004, o poeta homenagearia Chico Maranhão na parte final do livro Pão maligno com miolo de rosas: Chico velho, pulso firme/poeta irmão, em cabaré/para amparar-me no meu ir-me/aonde as águas não dão pé,/Chico velho, muito mais/que a rua toda, e sobretudo/a noite na Viana Vaz/sobre o meu coração mudo/……./Chico velho, nos Prazeres,/Chico velho na Alegria,/Chico velho, orai por eles,/Fontenelle e Zé Maria.

 Ponta d’areia

Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Capim verdinho levantando na cerca
Asfalto preto travessando a areia
Parede roxa quando nasce afundeia
Água na coxa trepadeira na telha
Fogo na boca mecanismo da veia
Surra o cachorro peixe seco na grelha
Morrendo pouco cada dia na mesma
Na mesa
Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Caranguejeira namorando a parede
Moça bonita desarmando a rede
Nasceu de novo palmeirinha contente
Viva o caroço que sustenta a gente
Olho no prato esperança na frente
Olha o borralho esquentando ausente
Morrendo pouco cada dia depende
Da trempe
Ê, Ponta d’areia
Há muito tempo que eu não te vejo, não
Pequena América da minha pobreza
Adormecida na própria natureza
Numa esquina brasileira surpresa
Nasceu menina comendo farinha seca
No fundo no fundo no fundo
Da nossa cabeça

Até 1970, antes da inauguração da ponte de São Francisco, quem quisesse ir até a praia da Ponta d’Areia, teria que atravessar o Rio Anil de barco. As embarcações eram pequenas e nos feriados e finais de semana eram comuns pequenas filas para fazer a travessia. Seu Viveiros e D. Camélia, pais do compositor Chico Maranhão, tinham uma casa naquela praia onde a família passava as férias desde o final dos anos 40. Quando começou a fazer música, essa era uma das paisagens presentes na alma do artista. Ponta d’Areia foi composta na primeira metade dos anos 70, quando Chico voltou a morar em São Luís, depois de viver quase 10 anos em São Paulo. Mais do que uma homenagem e lembrança de infância, o refrão: Ê, Ponta d’areia, há muito tempo que eu não te vejo, não… É talvez um lamento pela perda de um tempo e de um espaço de vivências que ficaram para trás e que só por meio da música é possível recuperar.

Vassourinha meaçaba

Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Se meu amor me quisesse
Não faria como faz
Foge de mim e se esquece, rapaz
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Quem foi que viu por aqui
Uma feição miudinha
O meu amor diz que vi
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Perguntei lá da montanha
Pro vento que vai e vem
Vento que vem da Espanha, meu bem
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Fiz um barquinho a vela
Pra sair com meu amor
Ele falou da janela, não vou
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Chepe, chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Convidei meu querubim
Pra ver o cocorocó
Ele falou-me assim: vai só
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração
Chepe, chepe, chepe, chepe, varre a sala
Chepe, chepe, chepe, chepe, varre o quarto
Até uma formiguinha
O quanto te espero
Minha vida, minha quero
Vassourinha meaçaba que varre o chão
Varre esta saudade braba do meu coração

Parte da obra de Chico Maranhão é recheada de canções lúdicas, herança do universo infantil e onírico que herdou de sua mãe D. Camélia, idealizadora do Boi Brejeiro, auto de bumba-meu-boi infantil construído a partir de vivências musicais em São Luís e no interior do estado. A casa onde morava a família Viveiros era o palco onde aconteciam os ensaios. O Brejeirinho era encenado no Teatro Artur Azevedo, em São Luís, nos anos 50 e 60 do século passado. Camélia Branca Costa de Viveiros (1906–1970) era professora de jardim-de-infância, fundadora de escolas públicas nos municípios maranhenses de Matões, Bacabal, Guimarães e Vitória de Mearim. Sua atuação nessas cidades foi em decorrência das transferências do marido, que era coletor e fiscal de rendas. A formação artística e cultural das crianças foi sua grande preocupação. Autodidata e estudiosa, D. Camélia recriou em linguagem infantil as manifestações culturais locais. Sua outra preocupação era com a natureza, tanto que as escolas que fundou ou às quais prestou serviço têm a “árvore de D. Camélia”, todas elas cultivadas e referenciadas em sua época e ainda hoje.  Chico bebeu nessa fonte, aprendeu pelas mãos da mãe a passear nesse universo que tinha, além do boi, o circo, a feira e as brincadeiras populares. Vassourinha Meaçaba é filha dessa herança.

Pastorinha

Cadê a pastorinha
que saiu da linha por uma varinha
Que dá na torrinha do amanhecer
Cadê ela minha filha que fez a quadrilha
Numa armadilha toda endoidecer
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer
A lua que é minha amiga
Vai fazer figa pra não ter briga
Pra ver quem fica com a espiga
e o doce cica vai pra barriga
Desse botica que responder
Será que essa pastorinha não fez uma linha
Jogando pedrinhas pra não se perder
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer
Eu vou passar a noite inteira nessa brincadeira
Com uma baladeira e uma ratoeira de adivinhação
Quem souber que venha correndo
O rato começou roendo, roendo
O doce do seu coração
Toc, toc, toc, toc, toc
Leva um doce quem souber
Toc toc, toc, toc, toc
Lá vai ela como quer

Uma das canções mais famosas de Chico Maranhão, da mesma linhagem lúdica de Vassourinha meaçaba. Tem um ritmo junino, uma quadrilha, uma brincadeira infantil cuja personagem principal é uma pastorinha. No vocabulário, palavras do mundo infantil do artista, comum nas brincadeiras juninas, principalmente nas quadrilhas.

UM SAMBA DO NOVO DISCO – CD DUPLO CONTRADIÇÕES

 

 Filho d’uma égua

Só mesmo sendo muito filho d’uma égua
Pra roubar sambas, poemas ou canções
Poetas merecem respeito
Por mais pobre que seja seu leito
Por mais pobre que seja seu chão
Não lhe considero mais
Nem mais estenderei a mão
Coisas de poeta
Não cabe qualquer tradução
Muitos já cultivaram a mania
De puxar da periferia
Uma brasa pra sua sardinha
Mas isso para nós aqui de casa
É meter a mão no povo
No caldeirão da vizinha
Mané Garrincha já contou
A nossa história
Brasileiro que é bamba
Já nasce com sua chama
Bate bola, bate samba
E não perde sua glória

A origem das canções de Chico Maranhão

LANCES DE AGORA – 40 ANOS

Quarta parte

 Por Celso Borges 

Chico Maranhão como amo do Boi Brejeiro, aos 9 anos, em 1951

 

Quando Chico Maranhão nasceu, em 18 de agosto de 1942, a família Viveiros morava num sobrado da Rua Santo Antonio, 161, centro de São Luís, perto do seminário onde Padre Antonio Vieira escreveu e pregou o Sermão dos Peixes, um de seus textos mais importantes. O menino cresceu ouvindo toadas e batuques de bumba meu boi e outros tambores. Aos nove anos já era o amo do Boizinho Brejeiro que sua mãe, D. Camélia, organizava e dirigia reunindo crianças de 5 a 12 anos, com apresentações no Teatro Artur Azevedo e em jardins de infância de algumas escolas da cidade.

Nessa época, início dos anos 1950, Chico viu da janela de fundo daquele sobrado que dava para o quintal de outra casa, algo que o transformou: a apresentação do tambor de crioula de Zé Negreiro, um curandeiro da cidade. “As famílias tradicionais costumavam evitar esses rituais da cultura popular, mas minha mãe com sua sensibilidade via aquilo como uma manifestação de autenticidade, por isso colocava os filhos para viver essas experiências. Foi ela que me levou pra ver aquele tambor de Zé Negreiro”, diz o compositor.

O sobrado onde o artista nasceu também tinha um quintal, onde ele vivia brincando, envolvido num ambiente e vivência do mundo como um grande terreiro. Dona Camélia também costumava levar os filhos ao teatro. Aos cinco anos, Chico já cantava “Chuá, chuá”, na personagem de um caboco brasileiro. Mas ele não gostava, se achava desafinado. Para a mãe isso não era um problema. Ela acreditava na educação pela arte e o mais importante era que o filho se expressasse e sentisse o mundo de outra forma.

Brincantes do Boizinho Brejeiro, crianças de 5 a 12 anos, organizado por D. Camélia,  mãe de Chico Maranhão, nos anos 50 e 60 do século 20

 

Não satisfeita em ver Chico só cantando, D. Camélia o colocou para aprender piano. “Era muito chato, mas foi importante na formação de minha musicalidade”, diz o artista. Experiências como essa e sua participação no boizinho Brejeiro o ajudaram a construir uma visão poética sobre a relação do boi com a ilha e estão presentes em muitos momentos de sua obra. Para Chico, o Maranhão é uma nação boieira. “Acho que nós vivemos numa grande fazenda de boi, da manifestação do boi. Toda o meu trabalho está marcado por isso”.

Depois do piano, descobriu o violão na adolescência. Seu primeiro professor foi o primo José Maria Fontoura, conhecido como maestro Zé do Munim, que ensinou pra ele os primeiros acordes na casa de uns parentes às margens do rio Munim, em Axixá. Foi também sua primeira influência para compor marchinhas de carnaval. Os choros, valsas e polcas de Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga que sua mãe tocava no piano também foram importantes em sua formação.

Já em São Paulo, esse universo se ampliou quando passou a ouvir e tocar  sambas de Noel Rosa, Assis Valente e Lamartine Babo, principalmente este último, com quem mais se identificou. Todo esse arsenal sonoro se aliou às toadas e batuques de bois e tambores que embalaram suas noites de infância e adolescência, semeando as notas e harmonias das futuras canções.

Música, arquitetura e um frevo no meio

D. Camélia queria o filho Francisco artista, mas o pai preferia que ele se formasse numa universidade. Por isso o mandou estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo em 1963. Só que ali Chico encontrou uma turma que gostava de música, o Sambafo, e se entrosou com ela. Três anos depois já tinha composto Gabriela e Verdureiro e logo em seguida fazia parte como violonista do elenco da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo, encenada no TUCA (Teatro da Universidade Católica), com música de Chico Buarque, seu colega na arquitetura.

Com a classificação de Gabriela para as finais do festival da Record em 1967, tudo mudou na vida do artista. A música, defendida pelo MPB4, tirou 5º lugar, e Chico Maranhão saudado como revelação. No ano seguinte participou novamente do festival, classificando Descampado Verde (outra vez nas vozes do MPB4) no IV Festival da TV Record, e Dança da Rosa (com o conjunto 004, Traditional Jazz Band e o próprio Chico) no Festival Internacional da Canção.

Foto da contracapa do disco Maranhão, Marcus Pereira, 1974

 

O compositor afirma que Gabriela foi injustiçada no III Festival da Record e que é a melhor canção daquela disputa. Segundo ele há no conteúdo desse frevo uma convocação, um “vamo reunir”, que é o seu grande diferencial em relação às outras. “Além disso, ela tem a alegria e o frescor da juventude, que era o que a gente mais precisava naquele momento”.

Antes de Gabriela, Chico Maranhão ainda não tinha certeza se queria seguir o caminho da música popular. Só depois da repercussão desse frevo é que  começou realmente a se profissionalizar, assinando seu primeiro contrato com editoras. “Nunca pensei em seguir carreira, é verdade. Fazia tudo por paixão, a paixão sempre comandou minhas ações”, afirma.

A música e a arquitetura são dualidades que sempre conviveram dentro dele, mas a música foi o “cavalo” mais forte. Embora não tenha desistido da universidade e se formado em 1970, a canção popular foi o caminho que escolheu para seguir em frente. Só voltaria a arquitetura mais de 30 anos depois quando estudou, lecionou, fez doutorado e escreveu um livro sobre os sobrados de São Luís. Chico admite a pausa, mas não fala em abandono e volta. “Minha música veio ao mundo pela lente da arquitetura”, diz pra acabar com a conversa.

São Luís e São Paulo

Lances de Agora foi lançado no final de 1978 e nos anos seguintes virou uma raridade, peça de colecionador. Chico Maranhão nunca o lançaria em CD. A quem lhe perguntava, respondia que havia impedimentos com relação ao selo Marcus Pereira. Em 1980, ainda faria um último disco pela gravadora, (Fonte Nova), uma espécie de “canto do cisne”. É um outro belo trabalho, que incluía entre outras canções, Fieis de São José, Viver, o samba Festa no Céu, A Vida de “Seo” Raimundo, além do bumba-boi Veludo, esta última em parceria com o compositor Cláudio ‘Popó’ Valente.

Nos anos 1980 e 1990, realizou alguns shows em São Luís e também Rio de Janeiro e São Paulo, participou de programas de televisão, principalmente o Som Brasil, de Rolando Boldrin, e gravou outros quatro discos: O Brejeiro (1988), auto infantil, com músicas do boizinho de Dona Camélia; Quando as palavras vêm (1991), São João, paixão e carnaval (1996) e Só carinho (2001), além de uma ópera popular sobre a cultura do bumba-boi: O sonho de Catirina (1995).

No começo dos anos 2000, volta à arquitetura, estudando, lecionando e escrevendo. Concluiu Mestrado em Desenvolvimento Urbano em 2002, na Universidade de Pernambuco e lançou quatro anos depois o livro Urbanidade do Sobrado: um estudo sobre a arquitetura dos sobrados de São Luís (Editora Hucitec, São Paulo, 2006).  Enquanto escrevia sua dissertação, compôs duas canções gravadas num cd encartado no livro.

No final de 2017, Chico dá mais uma guinada em sua vida. Aluga a casa onde mora na rua Graça Aranha, perto da Beira-Mar, arruma as malas e volta a morar em São Paulo.  Anunciou recentemente a realização de novos projetos, o primeiro deles o lançamento de um disco duplo, reunindo 22 canções, 19 delas inéditas. O novo trabalho começou a ser gravado em 2014 e só ficou pronto dois anos depois, com produção e arranjos do violonista Luís Jr.

Detalhe da capa do disco Maranhão, Marcus Pereira, 1974, cujo repertório destacava a música Gabriela

 

continua

Lances de Agora: personagens e bastidores

LANCES DE AGORA: 40 ANOS

Terceira parte

                 Músicos que participaram das gravações do disco Lances de Agora,   de Chico Maranhão,                           em junho de 1978, na porta da Igreja de São Pantaleão

 Bastidores e personagens

O instrumentista Zezé Alves estava começando a aprender flauta na época da gravação do Lances de Agora e era aluno de Sérgio Habibe. Não tocou no disco, mas acompanhou as sessões na sacristia da Igreja do Desterro, entre 22 e 25 de junho de 1978. Zezé lembra-se de pouca coisa: “O que vem à tona agora, de repente, são os sons da vassoura com que o percussionista Rodrigo varria o chão para servir de fundo na música Vassourinha meaçaba, além de um gravador suíço usado na captação do som ao vivo”. Outra lembrança do flautista é que num dos dias de gravação, os músicos saíram pra ver um jogo da copa do mundo: “acho que Brasil x Itália, na disputa pelo terceiro lugar, ou Argentina x Holanda, a final, no dia 25 de junho. Depois, fomos tomar cerveja num barzinho em frente à Igreja do Desterro”.

Da esquerda para a direita: Zezé Alves, Rodrigo Castelo Branco (percussão), Ronald Pinheiro (bandolim), Sérgio Habibe (flauta) e Ubiratan Sousa (violão e arranjos)

O percussionista Rodrigo Castello Branco também se recorda da história da vassoura: “Muita gente estranha o barulho excessivo do ‘chep, chep’ da vassourinha no disco. Mas é que Chico pediu que eu colocasse uns pregos no chão para que o efeito ficasse mais verdadeiro”, afirma. Rodrigo dividiu a percussão com Arlindo Carvalho e o sambista Antonio Vieira. A ele coube fazer as percussões menores do disco.

Amigo de Sérgio Habibe, Rodrigo começou a tocar na segunda metade da década de 1970. Foi um dos integrantes da formação original do Rabo de Vaca, em 1977, quando o grupo, liderado por Josias Sobrinho, fez Saltimbancos, com direção de Aldo Leite. Em 1979 já estava no Rio de Janeiro tentando sobreviver com música, mas menos de 10 anos depois voltou pra São Luís, deixando a percussão pelo meio do caminho.

Rodrigo abre o sorriso quando fala sobre Lances de Agora e recorda de outra história engraçada que aconteceu na gravação, envolvendo Sérgio Habibe.  Um barulho estranho começou a incomodar no meio de uma música e ninguém conseguia detectar de onde vinha. O produtor Marcus Vinícius já tava começando a desmontar o gravador achando que poderia ser algum problema técnico, até que Rodrigo procurando em outros cantos da igreja acabou encontrando a origem do barulho: “Era Sérgio Habibe roncando sutilmente debaixo do altar do Senhor Morto”. Sérgio confirma a história e se justifica dizendo que como as gravações eram demoradas, foi tirar um cochilo.

Outra interferência que costumava atrapalhar as sessões eram as buzinas de carro, que obrigavam a turma a refazer tudo. Numa delas, Marcus Vinícius falou: “Volta, volta, vamos regravar”. Do outro lado, Ubiratan Sousa gritou: “Pode deixar, Marcus, não precisa, ela tá no tom da música”. Rodrigo e Sérgio juram que é verdade. “Basta ouvir o disco, acho que é no final da música Mulher”, afirma Habibe.

Zezé Alves, Sérgio Habibe, Rodrigo Castelo Branco e Ronald Pinheiro

O compositor Sérgio Habibe é um dos grandes companheiros de geração de Chico Maranhão. Dividiram o palco algumas vezes, a principal delas no show I Love You, produzido por Pierre Barroso em 1986. Um pouco mais jovem do que Maranhão, Sérgio foi um dos fundadores do grupo Laborarte, no início da década de 1970. Ele, César Teixeira e Josias Sobrinho fizeram parte do núcleo de música do Labô e juntos começaram a trazer para o universo das canções experiências rítmicas e sonoras que dialogavam com a cultura popular, resultado que direta ou indiretamente desembocaria nas composições do disco Bandeira de Aço.

Além de estudar violão com João Pedro Borges, Sérgio aprendeu a tocar flauta doce na Escola de Música, ainda quando esta funcionava no Monte Castelo. Depois passou para a flauta transversa, no Rio de Janeiro, em meados daquela década, com um professor inglês no ProArte. Quando voltou pra São Luís, começou a dar aulas pra Zezé Alves e Sávio Araújo, que depois passaria a tocar sax.

Na época da gravação do Lances de Agora, Habibe estava passando férias em São Luís. Morava no Morro do Vidigal, em cima do Leblon, zona sul do Rio. Por ali passaram o próprio Chico Maranhão, a jornalista Helena Straus, Rodrigo Castello Branco e o compositor Raimundo Marques. Marques, filho do ex- senador Alexandre Costa, dividiu cerca de dez parcerias com Sérgio, entre elas, Vestido Bordeaux e Do jeito que o diabo gosta, esta última gravada pelo grupo carioca, Céu da Boca, nos anos 1980, e mais tarde pela cantora Fátima Passarinho.

                                     Da esquerda pra direita: Vanilson Lima, Antonio Vieira, Ubiratan Sousa,                                     Chico Saldanha e Paulo Trabulsi, num beco perto da Igreja do Desterro

Um solo de Ronald Pinheiro é uma das passagens mais citadas do Lances de Agora. Acontece na faixa de abertura, Samba Choro, em que o seu bandolim dialoga com o clarinete de Pitoca. Ronald não ia nem tocar no LP, o titular era Adelino Valente, músico experiente, bandolinista do Tira-Teima, que não pode comparecer porque o primeiro filho acabara de nascer. Ronald tinha 20 anos na época e já havia tocado com Chico Maranhão e Sérgio Habibe anteriormente. No final de 1979, Pinha, como é conhecido entre os amigos músicos, mudou-se pro Rio de Janeiro, onde ficou durante cinco anos. Ali, fez parte das bandas de Jorge Mautner e Robertinho de Recife, além de ter acompanhado Elba Ramalho no Sesc Pompeia (SP).

Ronald conta uma história interessante sobre o Lances de Agora. Um dia, já morando no Rio, foi visitar o pianista e compositor Antonio Adolfo e no caminho achou na rua o Caderno B, do Jornal do Brasil, uma página inteira sobre o disco, escrita pelo crítico José Ramos Tinhorão, que elogiava o LP de Chico Maranhão, citando o solo de bandolim em Meu samba choro. Sorri orgulhoso quando lembra disso. Tinhorão, inimigo declarado da Tropicália e da Bossa Nova, é um fã confesso do compositor maranhense.

               Em pé: Ubiratan Sousa (violão), Fernando Cafeteira (violão) e Antonio Vieira (percussão);           sentados: Paulo Trabulsi (cavaquinho), Chico Saldanha e Vanilson Lima (flauta)

Bira e Birão

Para escrever os arranjos do disco, Chico Maranhão chamou o instrumentista Ubiratan Sousa, fundador do grupo Tira-Teima. Bira era uma espécie de maestro da turma e remanescente dos primeiros festivais de música que aconteceram no Maranhão, no final dos anos 1960 e começo da década seguinte. Além de respeitado como instrumentista e compositor, era conhecido por ter inventado uma afinação diferente, chamada “Birão”, em que substituía uma corda MI por uma SI. “Chico trazia sugestões de harmonias e eu fazia os ajustes e os arranjos”, afirma o artista, que considera Maranhão um dos maiores compositores do país.

O diálogo com o produtor Marcus Vinícius se deu sem problemas, segundo Bira. A acústica da igreja era razoável e a gravação correu bem, sem muitas repetições. Em 1980, ele voltaria a trabalhar com Chico Maranhão no disco Fonte Nova.

Em quase 50 anos de carreira, Ubiratan Sousa escreveu mais de 700 composições, populares e clássicas, gravou três LPs e quatro CDs com músicas autorais e produziu mais de 50 discos. Em junho de 2016, representou o Brasil em um concurso internacional de música erudita na França e obteve o 3º lugar com a composição Liberdade em Consonância, orquestração do maestro Wagner Ortiz.

Quem também tocou tanto no Lances de Agora quanto no Fonte Nova foi Arlindo Carvalho, um dos percussionistas mais antigos em atividade em São Luís. Ao contrário de Ubiratan, ele diz que houve muitas regravações por causa dos barulhos e que o gravador tinha apenas dois canais. A outra lembrança é da cara fechada de Chico Maranhão, que quase não falava com os músicos e parecia estar em outro mundo. Arlindo e Antonio Vieira tocaram  reco-reco, cabaça e surdo. Os dois são da formação original do Tira-Teima.

Carvalho conhece bem a obra do cantor e compositor e afirma que Lances de Agora é, poeticamente, o disco mais importante da música produzida em São Luís. Depois desse trabalho e do Fonte Nova, o percussionista ainda tocou algumas vezes com Chico e destaca a turnê de Escravo Coração, na década de 1980, apresentado em São Luís, Rio de Janeiro e São Paulo.

Arlindo trabalha há mais de 40 anos fazendo a base percussiva do coral São João e é um dos idealizadores de três grupos instrumentais da cena musical da cidade: Urubu Malandro, que criou ao lado de Antonio Vieira; Sururu no Galinheiro, de gafieira; e Insensatez, de jazz e bossa nova. Atualmente, também acompanha a cantora Alexandra Nicolas.

Tira-Teima

O instrumentista Paulo Trabulsi não estava na formação original do regional Tira-Teima quando Ubiratan Sousa criou o grupo na primeira metade dos anos 70. Só faria parte da turma em 1976 a convite de Bira que o viu tocar numa roda de samba que acontecia aos sábados à tarde na base do Edilson, no Belira, perto da Madre Deus. Trabulsi ficou no lugar do compositor César Teixeira, dono do cavaquinho na primeira formação do grupo.

Foi um grande desafio pra Paulo porque ele tocava o instrumento há pouco tempo e o Tira-Teima era um time de craques. Além de César e Ubiratan, a formação tinha Chico Saldanha (violão), Fernando Cafeteira (violão), Adelino Valente (bandolim), Antonio Vieira e Arlindo Carvalho (percussão) e Hamilton Rayol (cantor). “Quando fui ao primeiro ensaio, vi que eu era um perna de pau no meio deles”, lembra Trabulsi. Mesmo inseguro sabia que o seu caminho de afirmação e amadurecimento como instrumentista era aquele.

A gravação do Lances de Agora teve uma importância profissional e emocional na vida dele. “O disco ainda continua sendo uma inspiração pra mim. Toda vez que o escuto, me emociono, não somente porque toquei nele mas porque é mágico”. Trabulsi não participou das sessões ao vivo na igreja do Desterro, só gravou na TVE e afirma que o Tira-Teima tocou com todos os seus integrantes somente em duas faixas: Samba Choro e Ponto de Fuga. Lembra que o gravador era pequeno. “Como é que uma porra daquela poderia gravar um disco?”, pensava. A afinação dos instrumentos na época era feita com o diapasão. “Hoje, com a tecnologia, tudo é mais fácil”.

Depois de gravar Lances de Agora, Paulo Trabulsi ainda acompanhou Chico Maranhão em alguns shows, mas deixou de tocar com ele depois de passar num concurso da Caixa Econômica, em maio de 1979. No final daquele ano, começo do seguinte, Bira foi pra São Paulo e fechou-se o primeiro ciclo do Tira-Teima. A Caixa mandou Trabulsi pra Bacabal em 1980 e o grupo só foi retomado, já sem Ubiratan, em 1985.

Dos músicos que tocaram no disco, dois faleceram: Antonio Vieira e Fernando Cafeteira.

Continua

Lances de Agora x Bandeira de Aço

LANCES DE AGORA – 40 ANOS – Segunda parte


Em meados dos anos 1970, o publicitário e empresário Marcus Pereira estava mais entusiasmado ainda com a música maranhense. Conhecera outros compositores locais além de Chico Maranhão e andava encantado com os sons, ritmos e melodias dos nossos artistas. A certeza disso estava no lançamento de Bandeira de Aço no primeiro semestre de 1978, pouco antes da gravação de Lances de Agora. O disco com nove canções apresentava ao Brasil, na voz de Papete (José de Ribamar Viana), parte da produção de uma geração que criava uma música diferente, com sotaque próprio. Composições de César Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

Por diversas razões os dois discos trilharam caminhos diferentes nos anos seguintes. Enquanto Lances de Agora se tornaria uma relíquia de colecionadores e, principalmente, um disco dos admiradores de Chico Maranhão, Bandeira de Aço se transformaria, a partir de meados dos anos 1980, num fenômeno local e hoje é uma referência obrigatória, uma espécie de disco pai do que se denominou chamar MPM.

A volta de Papete a São Luís no final da década de 1980 seria fundamental para a popularização desse trabalho. Ao contrário de Chico, artista recluso e de personalidade difícil, Papete transitava com facilidade no meio musical, principalmente entre os artistas da nova geração, e soube construir sua história em torno do Bandeira de Aço. Além disso, era um instrumentista respeitado internacionalmente e sabia trabalhar como ninguém esse prestígio.

Há também diferenças marcantes entre os dois artistas como intérprete. A voz de Papete é muita mais radiofônica (o que seria uma voz radiofônica, Celso?) do que a de Maranhão, o que favorece a sua presença nas programações de rádio. Por outro lado, o percussionista gravou mais de 20 discos e fez centenas de shows em sua carreira, enquanto Chico não lançou nem 10 trabalhos e fazia poucas apresentações, principalmente nos últimos 20 anos. O fato de Chico Maranhão nunca ter lançado Lances de Agora em CD, também prejudicou a vida do disco e a renovação de seu público.

Se pesarmos na balança, no entanto, é impossível dizer que Lances de Agora é menos importante do que Bandeira Aço. Um e outro estão na linha de frente do que existe de mais importante na nossa música popular, o anúncio de um jeito muito particular de compor e de falar. Nosso sotaque à flor da pele.

Há todavia um detalhe relevante que pode fazer com que essa balança favoreça o trabalho de Maranhão. Enquanto Papete recria uma sonoridade de quatro compositores de muita originalidade, e foi criticado por isso, Chico é ele mesmo o porta voz de sua própria originalidade. E isso lhe dá uma vantagem se formos analisar rigorosamente as dicções e sotaques dos dois discos.  É claro que tudo isso passa por uma percepção subjetiva, pelo afeto que cada ouvinte tem com cada um dos discos.

Bandeira de brigas

Marcus Pereira aproveitou a gravação ao vivo do disco de Chico Maranhão para vir a São Luís entregar pessoalmente Bandeira de Aço aos compositores cujas músicas haviam sido gravadas no LP. O encontro aconteceu dia 21 de junho, véspera do início das gravações de Lances de Agora, e dia do jogo Brasil 3×1 Polônia pela copa do mundo na Argentina. “Eu preferi não ir ao encontro, porque queria ver o jogo sozinho. Fui me encontrar com eles já depois, na casa do violonista João Pedro Borges, na Rua São Pantaleão. Soube que o encontro foi muito tenso e que Marcus Pereira saiu arrasado”, afirma o compositor Chico Saldanha, que dois anos depois se mudaria para São Paulo, onde viveu mais de 20 anos.

Os artistas protestavam por causa de questões ligadas ao pagamento de direitos autorais e por discordarem da sonoridade e harmonia adotadas por Papete. Não aceitaram nem as argumentações do empresário, nem as do percussionista. Saldanha tinha na época 33 anos e foi indiretamente o “culpado” pela gravação do Bandeira de Aço. Foi ele quem mostrou à Papete dois anos antes as músicas que estão no disco.

Josias Sobrinho não se recorda do encontro com o diretor da gravadora. Disse que a primeira vez que ouviu o LP foi num bar no Apeadouro, perto da Avenida Kennedy. E não gostou do que ouviu. Nem ele, nem César Teixeira, nem Sérgio Habibe, nem Ronaldo Mota. A briga com os músicos foi tão desgastante, que Papete só lançaria o disco em São Luís, dez anos depois, em 1988, quando a poeira sentou. Marcus Pereira não teve tanto tempo para se recuperar. Dívidas o obrigaram a parar de lançar discos em 1980. Desiludido, endividado e com problemas pessoais, matou-se com um tiro na cabeça em fevereiro de 1981. No ano seguinte a gravadora fechou de vez as portas. Em 14 anos tinha em seu catálogo cerca de 140 discos, mais de uma centena deles lançada depois de 1973. Uma herança e tanto.

Capa do disco tributo feito em homenagem a Marcus Pereira e lançado em 1982, um ano depois de sua morte. No repertório 12 faixas com algumas das músicas que ele mais gostava, gravadas pelo seu selo. Entre elas, Engenho de Flores (Papete), A vida de “seo” Raimundo (Chico Maranhão) e De Teresina a São Luís (Irene Portela), esta última, cantora nascida em Codó (MA).

 

 Veja a primeira parte

Continua Terceira parte

Lances de Agora – 40 anos

Parte 1

Parabéns pra você

Celso Borges

Na capa, vemos Chico Maranhão de cabelo grande, amarrado, com um olhar no vazio, concentração absoluta. Na contracapa nos olha de frente e tem a cara de sua música, ao mesmo tempo densa e límpida, verdadeira e ancestral. “Venta loló, pra esse barco andar”. E andou.

Há 40 anos, no mês de junho de 1978, um grupo de músicos maranhenses entrava na Igreja do Desterro para gravar uma das obras mais importantes da discografia produzida por um artista local: Lances de Agora, de Chico Maranhão. Nascido do ventre da professora e pianista Camélia Viveiros, em 1942, no centro da cidade, e batizado com o nome de Francisco Fuzetti Viveiros Filho, Chico Maranhão foi com pouco mais de 20 anos pra São Paulo. Na Pauliceia passou boa parte da década de 1960, dividindo seu tempo entre a faculdade de arquitetura e a música. Formou-se na turma que Chico Buarque abandonou e tornou-se conhecido com o frevo Gabriela, quinto lugar do 3º Festival da TV Record, em 1967, o mesmo que consagrou Ponteio (Edu Lobo), Domingo no Parque (Gilberto Gil), Alegria, Alegria (Caetano Veloso) e Roda Viva (Chico Buarque). No início da década seguinte voltou pra São Luís em busca de suas raízes musicais, principalmente àquelas ligadas à cultura popular.

Lances de agora é o segundo disco solo de Chico Maranhão pelo selo Marcus Pereira e o 82º da gravadora, responsável pelo registro e mapeamento da música brasileira de norte a sul do país, que estava fora das rádios e meios de comunicação, boa parte dela produzida no interior, longe dos grandes centros urbanos.

O empresário e publicitário Marcus Pereira conheceu Maranhão em 1966 no bar Jogral, do cantor e compositor Luiz Carlos Paraná. O local transformou-se num templo da MPB, em São Paulo, ponto de encontro de artistas e intelectuais nas décadas de 1960 e 1970. Pereira tornou-se sócio simbólico do Jogral e foi ali que amadureceu a ideia de montar uma gravadora.

Apaixonado pela música de Chico Maranhão, editou com ele um disco-brinde em 1969. Do lado A, canções do artista maranhense e do lado B, composições de Renato Teixeira. Em 1974, outro disco-brinde com 10 faixas, agora só com músicas de Chico, entre elas o sucesso Gabriela, Bonita como um cavalo, Cirano e Verdureiro.

Quatro anos depois, mais um LP pelo selo: Lances de Agora, uma prova de que  Marcus Pereira continuava apostando na dicção e sotaque do filho de D, Camélia como um grande diferencial na música brasileira. Por isso, fez questão de assinar um longo texto na contracapa do disco, declarando seu amor à obra do artista: “Este disco merece um seminário para debate e penitência. Ele me fez superar o primeiro espanto do primeiro encontro com Maranhão para um espanto maior. Do ponto de vista musical e literário, reúne 11 obras insuperáveis”.

Embora o texto de apresentação não mencione, Lances de agora foi gravado na verdade em dois locais, entre 22 e 25 de junho, com o São João pegando fogo e em plena copa do mundo de futebol na Argentina. As primeiras gravações aconteceram, sim, na sacristia da Igreja do Desterro, mas houve outras sessões numa sala improvisada na TV Educativa. A obra marca uma nova etapa do trabalho realizado pela gravadora Marcus Pereira, que começou em 1967 com o lançamento dos LPs Onze sambas e uma capoeira, de Paulo Vanzolini, e Brasil, flauta, cavaquinho e violão, este último, marcando o ressurgimento do choro.

Essa fase tinha o objetivo de gravar “in loco” as manifestações artísticas do povo brasileiro para viabilizar registros que, de outra forma, não poderiam ser feitos, e incorporar a autenticidade, espontaneidade e interpretação que o artista só alcança no seu meio, junto à sua gente, daí a escolha do Regional Tira-Teima para acompanhar Chico Maranhão. Foi dele a ideia da Igreja do Desterro como cenário para as gravações de Lances de agora. Queria aproveitar, talvez, a acústica e o silêncio da igreja, ou, quem sabe, ambientar de sagrado aquelas canções que ele escolhera para o repertório, todas compostas depois que ele voltou de São Paulo, com a exceção de Cirano.

Até a gravação desse trabalho, Chico ainda era conhecido apenas como Maranhão. Foi Marcus Pereira que resolveu colocar a nova assinatura: Chico Maranhão. Em recente entrevista ao programa Janela Cultural, da Universidade FM, o artista disse que só foi saber disso quando recebeu o LP, depois da prensagem, e que não gostou, mas era impossível voltar atrás.

O precário como sublime

O disco é assumidamente precário em termos técnicos. Há quem o rejeite por causa disso. Marcus Pereira se defendia na época afirmando que “o equipamento, ainda que profissional, evidentemente não possui os mesmos recursos dos equipamentos de estúdio. Entretanto essa relativa inferioridade é compensada pela verdade que o registro incorpora, pela participação de músicos de São Luís, familiarizados com o repertório e inspirados pela brisa da Baía de São Marcos que chegam depois de um pouso restaurador na velha cidade de Alcântara, onde seus velhos fantasmas lhe ficam acenando”.

Marcus Pereira escolheu a dedo o diretor musical do LP: o maestro, professor e compositor Marcus Vinícius Andrade, que dois anos antes, em 1976, assumira a direção artística da gravadora. Seu talento de músico, produtor e técnico é fundamental para o resultado final do trabalho. Os arranjos são de Ubiratan Sousa e os músicos que tocaram são: Chico Saldanha e Fernando Vieira ‘Cafeteira’ (violão), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Ronald Pinheiro (bandolim), Pitoca (clarinete), Sérgio Habibe e Vanilson Lima (flauta), Ubiratan Sousa (banjo, violão, viola e baixo acústico) e Antonio Vieira, Arlindo Carvalho, Carlos Pavão ‘Torrado’ e Rodrigo Castello Branco (percussão), quase todos integrantes do Tira-Teima, o primeiro grupo de choro maranhense.

Um dos registros fotográficos feitos durante os dias de gravação. Ninguém sabe de quem é a foto. Os artistas estão na porta das casas de Ubiratan Sousa (a da porta aberta) e de Chico Saldanha (a de janela aberta) na rua São Pantaleão. Da esquerda para a direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Castello Branco, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé Alves, Antonio Vieira e Vanilson Lima, este último sentado no pára-choque de um fusca. Todos vivos, menos o poeta Waldelino Cécio e o compositor Antonio Vieira. Todos artistas em atividade, menos Vanilson Lima, formado em engenharia e vivendo no Espírito Santo, e Rodrigo, profissional liberal, morando em São Luís.

Lances de Agora

 Link pra ouvir o disco

Lado A

  1. Meu samba choro
  2. Lances de agora
  3. Pontos de fuga
  4. Cirano
  5. Mulher
  6. Frevo do barulho

Lado B

  1. Boi meu, menino
  2. Velho amigo poeta
  3. Ponta d’Areia
  4. Vassourinha meaçaba
  5. Pastorinha

* Todas as composições são de Chico Maranhão

 Continua parte 2

 

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