Crônica dos dias mais difíceis ou Jornada do amor maior

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A volta para casa numa pequena aeronave: não parecia real


Por Andréa Oliveira
(Jornalista escritora)

Foram dias de silêncio, uma jornada para dentro de nós, uma escolha que respeito e honro. Um diagnóstico, possibilidades, um círculo pequeno de cuidados e muito, muito amor! De dezembro a abril vivi ao lado do meu amor o seu encontro com a finitude, o medo, as limitações do corpo, a fragilidade e disso tudo nasceu e cresceu uma ainda mais profunda intimidade entre nós.

Do início ao fechamento de um ciclo de atendimentos e procedimentos médicos, ele buscou, a cada dia, abrir janelas por onde o sol de sua alma inquieta e livre pudesse entrar. Segui seus sinais, guiada pelo amor que nos une – presente maior que trago em mim agora e é o que me faz viver! – e construí para ele castelos feitos da alegria possível para cada dia desde aquela entrada na emergência do São Domingos com uma dor no abdome.

 

Nós dois na cidade que nos tornou um par: último chão em que o poeta caminhou

 

Mergulhei com ele e só para ele vivi esse ciclo, cuidando e amando mais a cada dia, vivendo o medo em sua forma mais animal – quando o corpo reage mandando correr e a gente não corre porque precisa ficar e enfrentar cada etapa, por mais difícil que pareça, como de fato foi muitas vezes. Alimentei e fui alimentada da fina poesia de nosso encontro, nutrida pela profundeza dos seus olhos, suas mãos, sua voz e as canções, que desde o início foram testemunho e narrativa do nosso amor. Não o salvei da dor – física, mas não só – nem do ponto final desta viagem, ah, quem me dera ter esse poder! Segurei sua mão, morei dentro dos seus olhos e por ali todas as palavras foram ditas. Acompanhei, alimentei, cuidei, toquei seu corpo e sua alma com o meu corpo e toda a minha alma.

Meu poeta não viveu uma guerra, não foi combatente de nada. Não estava numa arena para vencer ou perder. Atravessou cada situação da montanha-russa que foram esses quatro meses e viveu inteiro cada passo dessa história. Tivemos momentos lindos de celebração da vida, da poesia e das canções, com sua mente luminosa acesa durante quase todo esse tempo, apontando o norte dos dias.

 

Amor e cuidados celebrados antes dos dias mais difíceis

 

A jornada se divide entre antes e depois de um AVC que tornou mais difícil controlar um câncer raro que trazia sem perceber. Um homem raro como ele não poderia ter algo comum. O AVC do tipo isquêmico, na região do tálamo, lado direito, desconfigurou o sistema que se pretendia abastecer com imunoterapia para combater o Mesotelioma peritoneal epitelióide. Esse é o nome completo dele, um tipo agressivo, de difícil diagnóstico, que forma uma espécie de constelação de células ávidas por ocupar a parede abdominal e de lá ir minando a potência de músculos e tecidos. Mas havia mais: chegara ao pulmão, raspando de leve, mas fazendo ali uma morada perigosa.

A geografia das intercorrências não definiu o curso de suas sinapses e iluminações, que seguiram em ansiosa criação. A maré de altos e baixos decorrentes de uma longa internação, no entanto, cuidou de abreviar a possibilidade de controle, reabilitação e cura. Esperançamos juntos a ideia de home care e eu, na humilde aceitação cristã de não sucumbir diante de laudos e relatórios clínicos, fantasiei essa etapa como uma imitação do filme As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, em que pudéssemos levá-lo para casa, dar-lhe o conforto de remédios e profissionais de saúde e ao mesmo tempo a companhia dos melhores amigos, brindando com vinho, pão e poesia a sua vida linda!

Foi cinematográfico o retorno a São Luís depois de mais de dois meses em São Paulo, dentro de um avião de pequeno porte com uma equipe médica monitorando seus sinais vitais e uma enfermeira cuidadosa que segurou a sua mão durante toda a viagem. A mim coube um assento ao fundo, de onde me vesti do amor maior para resistir à pavorosa sensação claustrofóbica de voar dentro de uma cápsula. Subimos ao céu no fim da tarde de uma segunda e aterrissamos em São Luís na madrugada da terça-feira. No meu coração o milagre se fazia ao reencontrar nossa cidade, chão que nos pariu e nos recebia de volta. Ah, quanto medo eu tive de não haver tempo de voltar para casa.

De hospital para hospital, é triste lembrar que ele não chegou a ver a cidade, sentir de fato que estava em casa. O consolo foi ter possibilitado o encontro com os amigos que ele chamou para momentos emocionados de afeto e alinhamento de projetos. Porque meu samba é de batida até o fim. Alimentada por sua poesia, escolho a alegria que ele multiplicou em mim e coleciono só os instantes amorosos, como os exercícios de fisioterapia que terminavam num beijinho, a mão a procurar a minha, o carinho no meu cabelo, os meus olhinhos que eu pedia e ele nunca negou, o brinde de guaraná Jesus na UTI, os poemas e contos que li pra ele, os poemas e rimas que ditou, as parcerias com Zeca e Alê, o orgulho com que falava às enfermeiras de cada filho e netos, a forma como me apresentava quando os profissionais de saúde perguntavam quem eu era: Minha amada! Ô sorte, meu Deus, ser a sua amada. As canções que me mandou a cada dia, sua forma de dizer tudo o que precisava ser dito, repetindo o rito inicial do nosso amor, quando gravou em fitas cassete a trilha sonora da nossa história. E nossa última noite no hospital, em que me pediu para ficar de conchinha e ali o abracei em silêncio de infinito amor, abafando o quanto pude as lágrimas que me dissolveram.

 

O brinde à vida e à poesia dentro da UTI do ACCamargo

 

Seu coração valente pulou a fogueira de um primeiro choque séptico e bem que tentou driblar o segundo, mas aí o corpo já não tinha forças, todos os recursos foram gastos. Foi só ali, vendo-o intubado pela segunda vez e depois daquela conversa em que o médico chama a gente para uma salinha é que de fato tomei coragem para deixá-lo ir. Sabia que não seria uma tarefa que eu pudesse abarcar sozinha. Beth chegou. Rezamos juntas e falei para o amor da minha vida que ele podia seguir, deixar seu corpo que por 23 anos conectou nossas almas. Ricarda, logo depois. Teca e Pedro também. Márcio, Eulália, mamãe, Grace, Marília, André e Luís Mário. Como deixar ir o grande amor, meu Deus? Mas quanta paz me trouxe conseguir fazer isso. Toquei cada centímetro de sua pele, orelhas, olhos, nariz, boca… Seus ombros, braços, suas mãos frias, o peito, morada do coração maior do mundo, seu ventre de onde a doença avançou, suas pernas e pés, enquanto disse tudo o que era possível dizer sobre nós e nossos meninos, sobre todos que ficamos e ficaremos bem. Quanta gratidão por esse amor, por esse homem menino, vinho da melhor safra que a vida me trouxe e tanto me deu!

Voa, passarinho, eu disse. Pedro também teve a sua conversa. Avisei Clarisse, que decolou de São Paulo às 8h40 de domingo, dia 23 de abril de 2023, ao mesmo tempo em que a alma do poeta Celso Borges se livrava de seu corpo frágil que já não tinha como contê-la. Pai e filha voando no mesmo instante. Clarisse, para os ritos finais da passagem dele entre nós. Ele, para o infinito, sua morada primeira.

Estou em paz. A história desses dias está contada. A vida por aqui é breve, por isso o dia de viver é hoje! Mas essa não é uma história que começa nessa jornada. Eu não posso me furtar de lembrar que antes dos quatro anos de um governo covarde, marcado pela estupidez e obscurantismo, que humilhou e ofendeu tantos autores e artistas brasileiros, Celso vivia dias plenos de saúde e vibração, realizando projetos e ocupando espaços. O hiato que durou uma eternidade trouxe tristeza, ausência de trabalho e possibilidades de produzir e dar vazão às ideias e parcerias luminosas que só ele conseguia articular e conectar. Penso que, mesmo não tendo ficado parado, a impossibilidade de colocar ideias na rua por meio de editais e outras fontes de incentivo à cultura implodiram de alguma forma e podem, sim, ter contaminado células bem ali na parte do corpo onde dói aquilo que não se consegue digerir.

Com os que lutaram conosco pelo fim desse pesadelo eu divido o meu amor por esse homem, a gratidão por sua existência e a sorte de fazer parte de sua vida. Sigamos juntos com fé na arte, motor da vida. Aos que estiveram do outro lado, da sombra que só gera o mal, a doença, e não suportam nada que transcenda à barbárie, que fiquem em paz com suas consciências e que não pronunciem o nome de Celso Borges em vão.

Essa jornada só foi possível com a companhia e o apoio imenso de uma rede de amor que se formou para que pudéssemos cuidar dele do jeitinho que merece. Meu muito obrigada imenso a cada conta desse rosário! Daniel, Clarisse, Pedro, Marília e a técnica Aline, que nos salvou num período de quase pânico. Teca, que se partiu em mil e conseguiu estar presente o tempo todo, e depois Gó e Meloca. Nos revezamos em plantões de puro amor! Bia e Dante, que nos alimentou em momentos que a alma precisava de aconchego. Eulália, todo dia e sempre. Deborah, amiga e chefe, e toda a rede EMAP. Lu e Idblan, quanto amor! Alê e Lu, não poderia ser diferente. Zeca Baleiro, presença e canções. Isis e Flávio. Gracyran e a conexão espiritual. Angélica e uma tarde de lembranças da subida ao Pico das Agulhas Negras. Karlinha, com quem conversou uma tarde inteira: Sou Tupã, sou Tupã, sou Tabajara… E todos, família e amigos que buscaram informações, de forma discreta e amorosa, e aos tantos mais que enviaram vibrações e preces que recebemos com amor. Thucydides, irmão que moveu o mundo pelo nosso retorno, e Carlos Alberto. Equipe do oncologista Celso Abdon, especialmente a doce Lívia, anjo ruivo que acendeu um sol nos dias cinzentos de internação no ACCamargo, e as equipes atenciosas de técnicos e enfermeiros, fonos e fisios que cuidaram com tanto zelo do senhor Antonio Celso. Alê & Lu – de novo e sempre, Beth & Márcio, que estiveram conosco no dia da saída de SP.

Em São Luís, a nós se juntaram Fátima, Diego e Aninha, ah, Aninha, nosso anjo da guarda que nunca falha e desde janeiro tornou possível minha presença total ao lado dele. E não por acaso foi a última pessoa com quem conversou. Nossa escala no São Domingos foi de amor profundo para garantir todo o conforto e paz de que Celso precisava enquanto enfrentávamos desafios inimagináveis para um hospital que se pretende o melhor da cidade. Uma gestão muitas vezes irresponsável sob a polidez de pedidos de desculpas padrão nas respostas às muitas solicitações via Ouvidoria que tivemos de fazer, sempre com o cuidado de não deixar que o poeta percebesse as tantas falhas com vidas preciosas. Não só a dele, mas de todos que ali precisam estar.

Aos amigos que ele convocou e prontamente chegaram junto: Fabreu, Garrone, Josoaldo, Samarone, Otávio e Cláudio. Viriam outros mais, em casa, como esperávamos, mas não houve tempo. Davi, filho fiel que esteve em SP e chegou à ilha na prorrogação para acompanhar as últimas batidas do valente coração do poeta, ao lado de Teca, a irmã caçula, quase gêmea, enquanto eu me preparava para levar meias que não pude calçar em seus pés. Ainda em casa, Pedro me deu a notícia que acabara de receber de Davi. Desabei. Coisa de alguns minutos. Respirei e senti seu abraço, como quem diz: Deda, acabou a pressa! Diante de seu corpo em silêncio, aparelhos desligados, minha dor e uma paz profunda deram-se as mãos. Voltei a beijar e a falar, agora para seu corpo vazio, como quem abraça a camisa amada que ainda guarda o cheiro de alfazema no colarinho. Segurando sua mão, imaginei o menino em outra cama de outro espaço, abrindo os olhos diante de Mário e Antoninho, cada um segurando uma de suas mãos.

Essa é uma história que seria melhor se inventada, pura literatura imitando a vida. Mas não. É a crônica dos dias mais difíceis, intensos, felizes, tristes e reveladores de nossa pequenez diante do mistério que é a vida.

 

Celso está vivo no presente: alegria é a prova dos nove

 

Meu amor está vivo em mim, em Pedro e Clarisse. Celso Borges está vivo em Daniel, Davi e Diego. Em Antônio, Gabriel, Alice, Maria Beatriz, Isabela, Klaus e José Luís. Em Geninha, Fátima, Goretti, Amélia, Carlos e Tereza. Em cada um que carrega o sangue português de Mário e Geninha e de seus ancestrais. Em cada amigo e amiga, que ele nos ensinou a chamar de irmãos. Em cada uma e cada um que o leu, ouviu e/ou teve o privilégio de sua companhia, conversa, abraço, amizade ou amor. Está vivo nas canções, nos poemas, nos livros. E aqui em nossa casa, em todo canto. Sei que fragmentos de sua pele estão em cada superfície de livros, discos, objetos. Nas imagens em que, vivo, gesticula, canta, fala, vibra, grita. Vive no cheiro de seu pescoço impresso no travesseirinho que aliviou as dores cervicais. O poeta está vivo em cada rua e pedra da cidade que tanto ama e tão bem cantou, entre fúria e paixão. Também está vivo em cada palmo da Paulicéia que lhe foi paixão, depois amor, família e por fim um solo triste onde deixou seus últimos passos neste planeta.

A poesia é maior do que a morte.

O amor é maior do que tudo e nos move ao infinito.

26 de abril de 2023

 

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