Turma de samba de Rosário- MA
Por Fernando Oliveira (jornalista e pesquisador da cultura)
A pouco mais de trinta dias dos desfiles de carnaval na passarela do Anel Viário, a programação que a Prefeitura de São Luís anunciará exclui, pelo segundo ano consecutivo, os blocos organizados, tribos de índio, blocos afro e turmas de samba.
A medida representa uma ameaça à sobrevivência dessas agremiações, uma vez que, disputando ou não o concurso, perdem espaço no palco onde há muito tinham lugar garantido. Afros, turmas de samba e tribos não concorrem em suas modalidades, ao contrário dos blocos organizados. Mas, tradicionalmente, todos desfilavam na avenida nos dias oficiais da folia.
Em um cenário onde impera a desassistência às agremiações tradicionais do Carnaval de São Luís por parte do poder público e a perda da relevância de blocos e demais brincadeiras, um capítulo diferente e até empolgante se abriu, ao menos para as turmas de samba. É o que prevê o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) das Turmas de Samba do Maranhão, que está sendo realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio do Grupo de Pesquisa Sobre Cultura Popular e Religião (GP Mina).
O INRC é uma metodologia de pesquisa desenvolvida pelo IPHAN para produzir conhecimento sobre os domínios da vida social aos quais são atribuídos sentidos e valores, constituindo marcos e referências de identidade para determinado grupo social.
GP Mina é um grupo de pesquisa que existe há mais de trinta anos na UFMA e se dedica a temas de religiões de matriz africana, afro-brasileira, afroindígena, afro-maranhense e cultura popular. É formado por alunos de graduação, pós-graduação e professores de diversas áreas do conhecimento, como história, antropologia e ciências sociais. Atualmente, é coordenado pela professora do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA Marilande Martins Abreu, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP.).
O trabalho de campo começou em março de 2024, e a investigação segue o mesmo modelo que o IPHAN adotou para a identificação de bens como o tambor de crioula e o bumba meu boi, que resultou no registro de ambos como patrimônio cultural imaterial brasileiro.
O inventário, por si só, não leva ao reconhecimento do bem como patrimônio imaterial, consequência que depende de um protocolo mais complexo e uma sequência de providências posteriores. Mas abre caminho para que as instâncias governamentais — federal, estadual e municipal — possam desenvolver ações capazes de garantir a preservação dessa forma de batucada, fortalecendo o seu modo de fazer.
Segundo a coordenadora da pesquisa, “o objetivo é conhecer, sistematizar dados, identificar as condições de produção e existência, organização, fragilidades e reunir informações sobre essas brincadeiras de carnaval, muito comuns nas comunidades quilombolas e rurais do Maranhão, como também nas cidades de pequeno e médio porte e na capital”, enfatiza Marilande Abreu.
O ritmo é encontrado em praticamente todas as regiões do Maranhão, com variações de batuque e nome de um lugar para outro, de tal forma que as organizações podem ser chamadas de turmas de samba ou de batucada, grupos de samba, blocos ou escolas de samba.
Em 2024, a equipe percorreu os municípios de Cedral, Cururupu, Perimirim, Pinheiro, Santa Helena, Pedro do Rosário, Presidente Sarney, Lima Campos, Pedreiras, Trizidela do Vale, Coroatá, Codó, Timbiras, Santa Rita, Axixá, Icatu, Presidente Juscelino, Morros, Rosário, Açailândia, Carolina, Campestre do MA, Imperatriz, Grajaú, Porto Franco, Riachão, Tasso Fragoso, Humberto de Campos e Primeira Cruz.
O conceito de patrimônio imaterial é abordado de forma direta na Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial adotada pela UNESCO. Essa convenção, realizada em Paris, em 2003, define o patrimônio cultural imaterial como as práticas, representações, expressões, conhecimentos e habilidades que comunidades, grupos e, em alguns casos, indivíduos reconhecem como parte de seu patrimônio cultural. Inclui tradições orais, artes do espetáculo, práticas sociais, rituais, festividades, conhecimentos e práticas relacionadas à natureza e ao universo, e técnicas tradicionais de artesanato.
A pesquisa se alinha a um dos pilares atuais da atuação do IPHAN, o de valorizar manifestações e tradições de comunidades afro-brasileiras, de acordo com o antropólogo Rafael Bezerra Gaspar, da Coordenação Técnica de Patrimônio Imaterial da superintendência do órgão no Maranhão. “Visto que esses bens são conduzidos e produzidos por essas populações de ascendência negra, então, essa é uma iniciativa que pretende promover esses grupos e buscar entender em que condições eles estão, para que possam também ser incluídos na política patrimonial da instituição”.
Pesquisadores como o sociólogo anglo-jamaicano Stuart Hall destacam a importância das manifestações culturais como ferramentas para a construção de identidades, especialmente, em contextos de diáspora africana. Nesse sentido, a turma de samba maranhense representa uma forma de resistência ao processo de apagamento cultural sofrido pela população afro indígena, promovendo a reafirmação de valores e tradições afro-brasileiras.
Conforme o inventário avança surgem indicativos que corroboram esse pensamento. “Eu não poderia dizer que turma de samba é isso, o carnaval do Maranhão é aquilo. Existem variações que têm a ver com fatores históricos, econômicos, têm a ver com a forma como essas comunidades negras e indígenas são apagadas na construção dos elementos culturais brasileiros, como o carnaval. Eu acho que não existe um modelo, mas elas (as turmas de samba) são presentes e vivas”, pondera Marilande Abreu.
A equipe da UFMA visitará ainda os municípios de Cajápio, Cajari, Matinha, Penalva, São Vicente de Ferrer, São João Batista e Viana.
Em São Luís, estão cadastradas, na Secretaria Municipal de Cultura, quatro Turmas de Samba: Fuzileiros da Fuzarca, Ritmistas Unidos da Madre Deus, Vinagreira do Samba e Ritmistas Unidos de Ribamar. Mais antiga e, talvez, a mais emblemática delas, os Fuzileiros da Fuzarca completarão 89 anos de fundação no próximo dia 11 de fevereiro.
Apesar de não participar do concurso oficial, a agremiação faz questão de desfilar na passarela, o que não aconteceu no último carnaval. “Em 2024, nós não fomos para a passarela. Foi uma tristeza para todos nós. E este ano já estamos sabendo que não vamos de novo. Mas, mesmo assim, estamos com a nossa fantasia: vai ter fantasia nova. Não podemos deixar cair a peteca. Indo para a passarela ou não, a fantasia nova nós temos que colocar”, lamenta o atual presidente e diretor de bateria dos Fuzileiros, João Álvaro Costa, o João do Sá Viana.
O inventário ora em andamento sinaliza a possibilidade de devolver às turmas de samba o prestígio e a visibilidade que tiveram no passado. O prazo para a conclusão do trabalho é agosto de 2025.
Presidente do Fuzileiros da Fuzarca, João do Sá Viana
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