Da rua para os negócios: como grafiteiras transformam arte em empreendedorismo

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Obra da artista Nicolle Amorim, em São Luís (MA) — Foto: Arquivo Pessoal

 

 

Por Paula Lobato 

(estudante de jornalismo – UFMA)

 

O graffiti e empreendedorismo, têm sido cada vez mais marcados pela presença feminina, em São luís do Maranhão.

 

Como mulheres Grafiteiras, inovam no empreendedorismo utilizando o Graffiti como base.

 

Que São Luís é uma cidade ilustrada pelas artes é evidente; as cores vibrantes em viadutos e passarelas reafirmam isso. Quando se fala de murais, grafites ou arte de rua de modo geral, não se associa de imediato a figura feminina por trás desses trabalhos.

 

São Luís é ainda uma cidade que, a cada dia, cresce no empreendedorismo feminino — cenário que não causa tanta estranheza, visto que, a cada dia mais, os negócios são liderados por mulheres.

 

Quando se levantam essas pautas, abre-se espaço para outro tipo de junção: como mulheres grafiteiras inovam no empreendedorismo utilizando o graffiti como base.

 

Em cenários majoritariamente predominados por homens, há um diferencial: Geiza Soares Goveia, 28, formada em Licenciatura em Artes Visuais, tem se destacado no meio e é um exemplo de superação. Está no ramo do graffiti desde 2015, em São Luís, mas começou a empreender somente quando entrou na faculdade em 2018.

 

Participação de Geiza Soares na 7ª edição da Feira de Desenhistas, em São Luís (MA) – Foto: Arquivo Pessoal

 

 

“Comecei a pensar no graffiti ainda no ensino médio, pintava com uns amigos da escola. Em 2015, já estava indo em eventos que tinha na cidade e andando com outras pessoas que faziam graffiti.

 

De 2015 pra frente, eu dei uma parada gigante porque a cena era 100% masculina e eu não me via ali naquele espaço, nem via outra mulher também (…) Quando voltei pro lance do graffiti, tinha mais duas, que são a Railde e a Negônica”,comenta.

 

Em 2020, ainda na faculdade, resolveu empreender com seus produtos. Com o passar dos anos, o graffiti foi ampliado para a ministração de cursos e oficinas.

 

“Em oficinas, é dividido em faixa etária. Geralmente, pergunto para qual público a oficina se destina. Se for para crianças, busco levar as informações de forma mais leve e breve, levar alfabetos de vários artistas do Brasil para que conheçam e copiem as letras, ou para colorir. Para adolescentes é parecido, porém, para esse público já dá para conversar mais, falar um pouco mais sobre história, estilos e afins. Ao final, experimentar o spray ou produzir stickers (adesivos).

 

“Utilizo o graffiti como uma das minhas principais ferramentas de empreendedorismo e profissão. Crio produtos de acordo com minhas produções, além da ilustração e da arte-educação. Essa linguagem (o graffiti) é muito versátil, utilizada de acordo com minhas vivências e experiências”, diz a artista visual.

 

Atualmente, Geiza participou de uma exposição para a qual foi convidada, Tempo de Brincar, organizada pelo Sesc-MA, a qual reúne suas ilustrações sobre o brincar de ontem e de hoje.
“Um espaço que almejo é o das exposições e salões de arte, com minhas linguagens, estilos e técnicas. No graffiti ainda não tive a oportunidade de ter uma exposição, tanto individual quanto coletiva. Estou aí para os espaços interessados, inclusive”.

 

No último ano, Geiza Soares ampliou seus negócios das
ilustrações e participou de exposição voltada para crianças—
Foto: Arquivo Pessoal

 

 

No Maranhão, atualmente, 41,2% dos negócios são liderados por mulheres. No graffiti, a presença ainda é minoritária. Mesmo com a presença feminina tendo crescido significativamente, dentro dessas estatísticas, Nicolle Amorim da Silva, 19, formanda em Licenciatura em Artes Visuais, experimentou cedo esses dois universos.

 

Participação de Nicolle Amorim na 7ª edição da Feira de
Desenhistas, em São Luís (MA) — Foto: Arquivo Pessoal

 

 

“Por volta dos meus 15, 16 anos, eu queria uma certa independência financeira. Não dava para ganhar o mundo com isso, mas já dava para ter meus trocadinhos. Então, eu fiz meu Instagram, comecei a divulgar as coisas que eu fazia e vendia telas, participava de feiras como encontro de brechós. Lá eu vendia algumas coisas, mas eram telas que eu mais vendia. Não tinha muita noção de empreendedorismo e preços naquela época”.

 

Para Nicolle, as suas principais atividades de produção e como empreendedora estão diretamente relacionadas ao graffiti, assim como seus maiores desafios.

 

“Meu produto principal acaba sendo o graffiti. Acabo realizando murais, e de feiras seria mais os adesivos, porque eles vendem mais rápido. Acredito que seja por conta do público, por conta do preço. Telas e acabam ficando em uma parte secundária, mas coloco para venda”, compartilha, ressaltando seu maio rendimento.

 

“Então, o que eu mais vendo são adesivos, e o que eu mais recebo procura são os murais”, complementa Nicolle.

 

Mas além dos rendimentos e da procura, os desafios também se destacam.

 

“O valor talvez seja mais para o lado sensível, porque aquilo mexe muito com você, mas como aquilo vai mexer com as pessoas? É muito complicado tu dar valor em algo que é artístico. Tu dá valor em uma peça de roupa ou uma mesa, que, tipo, pode ser um produto artístico, mas, nesse caso, tem valor utilitário — você usa aquilo. Uma tela, não necessariamente. Você não está usando, é mais arte como forma de contemplar mesmo, que é o meio artístico que eu produzo. Normalmente, eu não chego a produzir camisas ou ecobags, mas em breve vem aí”.

 

Não necessariamente é preciso iniciar no grafite para se apaixonar pela prática. Para Brena Souza, 31, tatuadora a experiência foi um pouco diferente: começou a estudar sobre muralismo um pouco depois de ser tatuadora.

 

Brena Souza, produzindo tatuagens
sólidas e eternas em São Paulo no Estúdio
Casa Feia ) — Foto: Arquivo pessoal

 

“Encontrei na tatuagem uma oportunidade de trabalhar com meu desenho, utilizando técnicas que me agradam e entregam os resultados que procuro na tatuagem: alto contraste, tanto em desenhos na cor preta quanto em desenhos coloridos.

 

Sempre tive um feeling pra arte de rua, então comecei a estudar grafite e muralismo bem depois”.

 

“Aproveitei a oportunidade que tinha de ganhar dinheiro com tatuagem pra investir em alguns materiais, como spray, para então explorar o grafite/muralismo e estudar técnicas de grafite e mural em grande escala. Utilizo grid, que é uma técnica que também usamos na tatuagem para elaborar a arte pensando para cada região”.

 

“Agora estou buscando explorar mais ainda meu trabalho em muros. Desejo, em breve, ter um acervo de pinturas na rua tanto quanto já tenho em peles”, afirmou Brena.

 

Tanto Geiza, Nicole quanto Brena possuem em comum o prazer de fazer arte e empreender, e entendem os desafios que enfrentam e enfrentaram diariamente. Apesar de seus desafios, ambas desejam representar a cidade com suas artes em exposições afora e inovando no empreendedorismo.

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