O remoto verão da poesia

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Imóvel onde era o Poeme-se, na Rua do Sol

 

Por Eduardo Júlio
Jornalista

 

Num dia útil qualquer do primeiro semestre do longínquo ano de 1989, eu caminhava com uma amiga na rua do Sol, no intervalo do cursinho pré-vestibular, quando avistei uma livraria com nome curioso: Poeme-se. Na época, eu começava a me interessar por literatura e esse encontro acabou transformando a minha vida para sempre.

 

O Poeme-se ficava localizado no mesmo prédio onde, à época, estava sediado o PT, num casarão colonial com janelas em estilo árabe, e, quando entrei, fui recebido pelo poeta alagoano Jurandir Mamede, que passava uma temporada em São Luís. Foi ele que me avisou sobre a leitura a ser realizada na livraria, naquela mesma semana, a respeito da obra do poeta norte-americano Allen Ginsberg, expoente do movimento beat.

 

Naquele tempo, eu estava conhecendo o universo da contracultura do Brasil e do mundo e uma das áreas de meu interesse era o movimento comportamental e literário dos beats. Em razão disso, nem pensei duas vezes, compareci à atividade e descobri que o Poeme-se, além de um sebo e livraria, era um grupo, que promovia encontros literários constantemente.

 

Foi quando conheci e fiz amizade com os poetas Paulo Melo Sousa, Cláudio Terças e Ribamar Filho, que formavam o núcleo do Poeme-se, além de outros camaradas frequentadores das atividades do sebo, como o ator e escritor Geraldo Iensen e o atual cineasta Beto Matuck, na época estudantes de Comunicação da UFMA, o que me tornaria também em poucos meses.

 

Outros artistas igualmente orbitavam, naqueles dias, em torno do Poeme-se, como a atriz Rosa Ewerton, e alguns amigos chegaram um pouco depois, a exemplo de Elício Pacífico, que integrou o grupo em sua fase mais teatral.

 

Com essa turma, passei a caminhar habitualmente pelo Centro Histórico, a conversar sobre arte e a frequentar os simplórios botecos de São Luís, estabelecendo uma relação mais profunda de pertencimento com a cidade.

 

Também devido ao encontro com o Poeme-se, mergulhei ainda mais nas obras de Drummond, Leminski, Maiakóvski, Rimbaud, Torquato Neto, entre tantos outros que foram temas dos saraus literários do grupo. A obra do poeta piauiense, por exemplo, foi abordada numa noite intensa e inesquecível, na véspera do segundo turno das eleições de 1989, quando sonhamos muito com um país socialista e mais igualitário.

 

Vivíamos em outra São Luís, é certo: lírica, terna, ingênua, desacelerada e melancólica. Com essas características, talvez tenha sido apenas uma miragem, uma cidade imaginária. Éramos jovens e o país adentrava em um novo momento democrático, regido por uma avançada Constituição, recém-promulgada. O mundo também era outro, com muros sendo derrubados.

 

As perspectivas, portanto, eram muitas e positivas, embora, na prática, quase nada enxergássemos além do horizonte da baía de São Marcos ou das paredes dos casarões da Praia Grande.

 

No começo de 1993, venci o primeiro festival de poesia promovido pelo Poeme-se, realizado no Teatro João do Vale. Naquela noite, defendi o poema “Um pouco depois de tudo”, que só veio a ser publicado no meu primeiro livro, “Alguma trilha além”, lançado em 2005.

 

Do carismático poeta Jurandir Mamede, após várias passagens por São Luís nos anos 90, nunca mais se ouviu falar dele, jamais foi localizado pelos atuais radares digitais.

 

O casarão que, no início, abrigou o Poeme-se, no momento se encontra em estado de abandono, desprovido de dignidade, aguardando, em silêncio, a ruína. Num piscar de olhos, poderá virar carcaça, assim como parte do ambiente do Centro Histórico de São Luís.

 

Por outro lado, o sebo ainda existe em outro endereço e talvez seja o mais importante da cidade.

 

Depois de quatro décadas, mantenho a amizade, às vezes de forma remota, com todos os antigos integrantes do grupo e continuo a escrever poemas, sem nunca esquecer daqueles dias de caminhadas, versos e descobertas.

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