
João Ubaldo de Moraes (década de 1970)
Por João Ubaldo de Moraes (Cineasta e jornalista)
Entre 1975 e 1985, o Maranhão (Brasil) viveu uma notável produção cinematográfica em Super 8mm, com mais de 140 filmes criados por estudantes, artistas e amadores.
O movimento nasceu na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), impulsionado pelo Cineclube Uirá e pela efervescência cultural do período, tornando-se marco da história audiovisual do estado.
Com o tempo, a falta de políticas culturais levou à dispersão do grupo e a perda de grande parte das películas. Restaram apenas exemplares preservados, basicamente em três arquivos pessoais: o de Murilo Santos, o de Ivan Sarney Costa e o deste autor.
O meu arquivo está sendo digitalizado, desde 2013, com apoio do Museu da Memória Audiovisual do Maranhão (MAVAM). É um arquivo que representa a memória viva de uma geração pois é uma fonte visual representativa do Maranhão dos 1970 e 1980. Sua preservação garante que o passado continue a iluminar o presente e inspire o futuro do cinema maranhense.
Início de uma história
Este ano de 2025, que está chegando ao fim, marca meio século da criação do Cineclube Uirá e da realização do primeiro documentário em Super 8 mm no Maranhão (Os Pregoeiros de São Luís, dirigido pelo fotógrafo e cineasta Murilo Moraes Santos). Este filme inaugurou a fase mais fértil e criativa do cinema maranhense.
Tudo começou em 1975, no Solar Nazeu Quadros, na Rua do Ribeirão, no Centro Histórico de São Luís (estado do Maranhão – Brasil), onde funcionou a sede do Cineclube Uirá, em plena efervescência cultural da UFMA, incluindo, também o teatro, artes visuais, canto-coral entre outras formas de expressões artísticas.
Era um tempo em que a juventude de São Luís ludovicense começava a querer transformar a realidade por meio da arte, enfrentando, com disciplina e coragem, as agruras impostas pela Ditadura Militar (1964–1985).
Vivíamos ainda sob o eco dos “anos de chumbo” de governos como o do presidente da República Garrastazu Médici. Mesmo sob vigilância política, o ambiente estudantil fervilhava em ideias, músicas, teatros e pequenas rebeliões culturais.
Cinema Super 8
Nesse cenário, o cinema Super 8 surgiu como uma ferramenta acessível e libertadora. Bastava uma câmera super 8, um rolo de filme e disposição para criar. Era o cinema possível — artesanal, de baixo orçamento, mas ainda caro para nossa realidade provinciana.
O Super 8 foi, antes de tudo, uma descoberta. Percebi que poderíamos filmar sem depender das estruturas onerosas do cinema 16 ou 35 mm. Não queríamos ficar apenas nas salas de projeção, admirando ou criticando filmes inatingíveis. Queríamos participar da criação com nossos próprios meios. E o Super 8 nos oferecia essa liberdade.
O formato Super 8nos fascinou. Permitia registrar o cotidiano, as festas populares, os encontros estudantis e a cidade em transformação. Assim nasceu o movimento superoitista maranhense, unindo estudantes, artistas e curiosos em torno de um mesmo desejo — mostrar a própria realidade à semelhança dos cineastas amadores do mundo inteiro.
Entre 1975 e 1985, produzimos mais de 140 filmes — documentários, ficções e experiências visuais. Muitas imagens pareciam ingênuas, tremidas e despretensiosas. Mas, eram expressões sinceras de corações jovens. Outras revelavam ousadia política e poética. Com o tempo, o movimento se tornou uma das expressões culturais mais significativas da história do audiovisual maranhense.
Apesar do entusiasmo, nosso cinema Super 8 era visto com certo desdém. Raramente chegava às grandes plateias. Sobrevivia em sessões universitárias, escolares, eventos culturais e artísticos. Quase nunca era notícia nos jornais.
Quando aparecia, por assim dizer, era por iniciativa de algum realizador que sabia “cantar o ovo que a galinha punha naquele momento”. Muitas notas jornalísticas eram salvas pelo olhar generoso do crítico José Frazão, do Jornal Pequeno, que valorizava nossa produção e integrou, por anos, o júri dos festivais de Super 8 e do Guarnicê de Cinema. Seu apoio foi essencial para que não nos sentíssemos invisíveis.
UFMA: berço e silêncio
A UFMA foi o berço do movimento. A iniciativa partiu do ex-padre italiano Mário Cella, então coordenador de Assuntos Estudantis da PROEC/UFMA, incentivado pelo reitor Josué Montello, entusiasmado com o sucesso do recém-criado Coral Universitário.
Mário Cella e Josué Montello acreditavam na arte como instrumento de transformação e cidadania. Mário trazia experiência com cineclubes do seminário, onde até chegou a realizar pequenos registros em Super 8.
Com o tempo, o formato foi sendo substituído pelos sistemas VHS e Betamax, mais baratos e instantâneos. Em 1983, o entusiasmo se dispersou e o silêncio se impôs. A ausência de políticas culturais, o desinteresse das gestões universitárias e o avanço das novas tecnologias relegaram o Super 8 ao esquecimento.
A mesma instituição que o fez nascer acabou permitindo que suas memórias se apagassem. As cópias em Super 8, que não eram muitas, desapareceram uma a uma. Até mesmo os filmes 16 mm doados pela Embrafilme à Filmoteca do Cineclube Uirá, sumiram sem deixar rastros. Durante décadas, não houve acervo, inventário ou registro oficial. Restaram lembranças e alguns rolos guardados por realizadores teimosos.
O preço do abandono foi alto: muitos filmes se perderam, outros se degradaram pela umidade e pelo tempo. Alguns poucos sobreviveram graças à insistência de quem acreditava no valor histórico e cultural dessas imagens. O cinema Super 8 do Maranhão voltou a ser indigente e desmemoriado.
Guardiões da memória
Felizmente, nem tudo foi tragédia. Desde 1978, venho reunindo informações e vestígios sobre cada filme produzido entre 1977 e 1985 — período que inclui meus trabalhos realizados à Secretaria de Desporto de Lazer do Maranhão (Sedel.
Também em 1978, produzi o último filme Super 8 realizado no Maranhão: “Aspectos de São Luís”, documentário sobre os filmes 8 mm do cineasta amador Murilo Viana.
Outros companheiros também preservaram parte desse legado. O advogado e poeta Ivan Sarney Costa guardou seus filmes com zelo exemplar e nos cedeu a guarda para selecioná-los.
O fotógrafo e documentarista Murilo Santos tornou-se autor e depositário de obras enviadas pelos próprios realizadores, como quem entrega um bem precioso para salvá-lo da ruína.
Com o tempo, compreendemos (nem todos) o valor daquele acervo que, sem sabermos, estávamos construindo.
Hoje, cerca de 60% da produção maranhense em Super 8 permanece ainda sob a proteção desses três guardiões. O restante, se ainda existir, repousa em malas, estantes e baús particulares. Jamais em instituições oficiais.
Este cuidado nasceu da consciência histórica, não da vaidade. Cada rolo representa um fragmento da memória cultural do Maranhão.
Nenhuma televisão local registrou o mesmo período: as emissoras já haviam abandonado o 16 mm e, por economia, apagavam diariamente as fitas de vídeo. Nada sobreviveu à insanidade tecnológica da época.
O Super 8 foi, assim, o único instrumento de expressão audiovisual independente de uma geração inteira. Perder esses filmes seria apagar o rosto de uma época.
A retomada do trabalho
Depois de 25 anos dedicados ao telejornalismo maranhense e outras tantas áreas da comunicação institucional, reencontrei o cinema em 2013. O propósito era recuperar e digitalizar as películas guardadas por décadas. MAVAM, dirigido pelo cineasta Joaquim Haickel, abraçou a causa e tornou-se parceiro essencial.
Iniciamos o processo de telecinagem em alta definição HD — a maior resolução possível à época. Pela primeira vez, uma instituição maranhense assumia compromisso direto com a preservação do Super 8. Não houve financiamento público: foi uma ação voluntária, movida pelo entendimento do valor histórico e pelo amor à arte.
Cada filme recuperado devolvia rostos, vozes e lugares apagados da memória coletiva. O resultado confirmou que o Super 8 não fora uma aventura juvenil, mas um retrato autêntico da vida maranhense.
O trabalho foi árduo. Passei meses em busca de laboratórios e técnicos em outras cidades. Muitos recusaram o serviço ou cobraram valores extorsivos e inacessíveis.
A solução veio de São Paulo, com o cineasta Roberto Buzzini, grande defensor e colaborador do cinema Super 8 brasileiro, que reativou seu antigo laboratório e realizou a telecinagem com excelência.
Cinco meses depois, todo o acervo localizado até então estava digitalizado, readquirindo o brilho e a vida das películas originais.
Novo ciclo do Super 8
Ao contrário do que previam os mais céticos, o Super 8 não morreu com o avanço das tecnologias digitais. Pelo contrário: parece mais vivo do que em seus áureos tempos. Falta apenas o mercado se equilibrar e o formato ocupar o nicho que merece.
O mundo assiste à redescoberta do Super 8. Ele voltou às mãos de artistas, estudantes e cineastas. Laboratórios independentes fabricam novas películas e reperfilam negativos de 35 mm. O entusiasmo global fez renascer festivais dedicados ao formato como: Straight 8 (Londres), Curta 8 (Curitiba), Super Off (São Paulo), O Inflamável (Santa Catarina) e o Festival de Campinas, entre outros. Até o Festival de Cannes criou uma categoria especial para defender Super 8 mm.
O formato passou a ser usado em videoclipes, produções autorais, publicidade e arte contemporânea. Apesar da escassez de equipamentos e da dificuldade técnica, a paixão voltou. Hoje há filmes coloridos e em preto e branco de várias sensibilidades, e a edição digital tornou o processo acessível e salvador.
O Super 8 voltou a unir o gesto artesanal à criação moderna, mantendo sua essência libertária.
No Maranhão, essa retomada deveria ocorrer no Festival Guarnicê de 2025.
Após quase dois anos de preparação e sonhos, o projeto foi interrompido de forma abrupta e inconsequente. Pasmem!… Faltou compreensão e compromisso artístico/cultural e histórico.
O Departamento de Assuntos Culturais (DAC), da UFMA, mesmo com o projeto pronto, não obteve autorização da Comissão do Festival para aplicar os limitados recursos pretendidos, há poucos dias antes do evento. A proposta foi simplesmente descartada. Restou a frustração de uma oportunidade histórica desperdiçada e o constrangimento da diretora do DAC.
A comemoração pelos 50 anos de criação do Cineclube Uirá, contudo, continua simbólica e necessária, apesar da falha com a cultura audiovisual do nosso estado. Representa o reencontro do movimento cinematográfico do Maranhão com seu ponto de origem — a UFMA.
Esperamos que o Reitor da Universidade Federal do Maranhão, prof. Dr. Fernando Carvalho Silva, venha a receber-me para um encontro e tome uma atitude concreta e positiva em relação a salvaguarda do acervo de filmes realizados pelo Movimento de Cinema Super 8 do Maranhão, iniciado pelo Cineclube Uirá. Mais que uma simples homenagem, esperamos o ajuste de contas pela responsabilidade da criação e pela preservação da memória do povo maranhense. Chega de indigência audiovisual!
Valor da memória
Resgatar o cinema Super 8 não é gesto de nostalgia, mas de responsabilidade histórica. O Maranhão não pode perder o que ainda sobrevive de seu patrimônio audiovisual. Esses filmes guardam as vozes e os gestos de um momento histórico registrado por uma geração que acreditou no poder da imagem. São testemunhos de um tempo em que filmar era também um ato político.
Preservar essas películas é assegurar que o futuro tenha acesso ao passado. O Super 8 demonstrou que é possível criar com pouco e emocionar muito. Cada rolo traz uma parte da alma maranhense.
O cinema feito nessa bitola nasceu da escassez, resistiu à indiferença e renasceu pela persistência de poucos. Agora, cabe às novas gerações compreender e acolher esse legado, dando-lhe continuidade.
O tempo não apaga o que foi feito com verdade. As películas ainda guardam o brilho das luzes e o calor das ideias de quem acreditou que o Maranhão poderia ser visto e memorizado de outro modo.
O Super 8 é isso: uma lembrança que se move, um retrato que respira, uma memória que insiste em permanecer viva.

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